Pedro Bandeira

Pntano de Sangue

Uma aventura com os Karas



Ilustraes de Eugnio Colonnese




Coleo Veredas


Dados de Catalogao na Publicao (CIP) Internacional (Cmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
Bandeira, Pedro. 1942-
B167p Pntano de sangue / Pedro Bandeira ; ilustraes Eugnio Colonnese,  So Paulo : Moderna, 1987.
(Coleo veredas)
1. Literatura infanto-juvenil I. Colonnese, Eugnio. II. Ttulo. III. Srie.

87-1467
CDD-028.5
ndices para catlogo sistemtico:
1. Literatura infanto-juvenil 028.5
2. Literatura juvenil 028.5

ISBN 85-16-00252-7


EDITORA MODERNA LTDA.




PNTANO DE SANGUE
O crime ronda o Pantanal
Miguel, Crnio, Calu, Magri e Chumbinho, a turma dos Karas de A Droga da Obedincia, envolvem-se com o crime organizado que est agindo no Pantanal de Mato Grosso, liderado pelo implacvel Ente. Em um enredo fascinante, repleto de suspense do comeo ao fim, discute-se a dramtica destruio dos jacars, dos ndios e da natureza em um dos ltimos lugares do mundo que ainda poderia ser chamado de Paraso Terrestre.

SUMRIO
1. Um crime brutal........................ 	 3
2. O ouro da Mfia.......................... 	11
3. O inferno comea no paraso..............	18
4. A voz grossa do Pantanal...................	23
5. Trs vezes destruio....................... 	28
6. E se chamava Robson...................... 	36
7. Um cemitrio para milhares...............	42
8. Veneno nas veias.......................... 	49
9. Bancando o Montecristo.................... 	56
10. O sangue banha o Taquari.................	60
11.0 formigueiro do crime.................... 	66
12. O hlito do demnio....................... 	73
13. Nos dentes da morte....................... 	80
14. Ningum escapa do grandalho........	90
15. Na trilha do Pequeno Polegar..........  97
16. A batalha do Pantanal..................... 106
17. Morte pantaneira............................. 116
18. Uma cano morre no mar.............. 121
?






1   Um crime brutal
 
Tinha sido um professor. Um ser humano. Dos melhores.
Agora nem parecia um homem. Era apenas um cadver brutalmente massacrado. Uma massa de sangue, retorcida e pisoteada, jogada na calada como um fardo de roupa suja.
Naquela manh de junho, as aulas no Colgio Elite comeavam de modo trgico demais.
Algum lembrou-se de cobrir o corpo com jornais. As manchetes falavam da violncia urbana.
Amparada por um colega, uma estudante vomitou.
Do grupo de curiosos, um rapazinho afastou-se. Pouco depois, de dentro do colgio, ouviu-se o som triste de uma gaita.

***
A bordo do Boeing que cortava o ar em direo ao misterioso Pantanal Mato-grossense, Miguel tirou do bolso a pequena gaita prateada. A gaitinha. A marca registrada de Crnio, o companheiro desaparecido. A gaitinha. Agora completamente muda, longe do sopro do amigo. Longe de Crnio, o gnio dos Karas.
Os Karas! O avesso dos coroas, o contrrio dos caretas! Aquele grupo secreto de alunos do Colgio Elite reunido por Miguel s pela farra, pela aventura, mas que logo acabaria se envolvendo em perigos reais. Perigos que nem mesmo ele, Miguel, o lder dos Karas, poderia ter imaginado. Como aquele que os cinco adolescentes haviam enfrentado na luta contra o sinistro Doutor Q.I. e sua Droga da Obedincia. Os cinco Karas: Miguel, Calu, Chumbinho, Magri e... e Crnio!
Miguel falou baixinho, como um desabafo, para Magri, sentada na poltrona a seu lado:
 Ele pode estar morto. A esta hora, Crnio pode estar morto...
A garota apertou a mo do amigo.
 Ele est vivo, Miguel. Tenho certeza.
O calor da menina trouxe uma sensao gostosa que percorreu todo o corpo do rapazinho. Um conforto especial de que ele precisava. Um conforto que s poderia ser oferecido por Magri, a nica garota do grupo dos Karas.
 A culpa  toda minha, Magri. Eu estava errado. No quis acreditar no que Crnio dizia. Ele ficou sozinho. Eu o abandonei...
 No se culpe, Miguel. As idias de Crnio pareciam malucas mesmo. Eu tambm no acreditei nas teorias dele sobre o assassinato do professor Elias. Chega de fossa. Tenha confiana. Ns vamos encontr-lo!
Miguel cerrou os dentes, tentando disfarar o pessimismo. Ele no se perdoaria se os outros percebessem seu momento de fraqueza.
Os "outros" eram Calu e Chumbinho, e ocupavam as duas poltronas atrs de Miguel e Magri. Examinavam um mapa do Mato Grosso do Sul, e Chumbinho apontava para fora, tentando localizar pequenas vilas em meio ao cerrado.
 Sabe, Calu, meu pai importou um novo simulador de vo para o meu computador.  um programa de treinamento para os pilotos da NASA. J estou dominando perfeitamente. Passar por cima de uma serrinha como esta, por exemplo, seria uma moleza. Um clculo fcil. Era s subir os flaps suavemente, sem que.,.
 Ora, Chumbinho, voc s pensa em computador e vdeo game!
Na poltrona  frente de Miguel havia mais um "outro", do qual s se podia ver a careca e ouvir o ronco de seu sono agitado. O detetive Andrade, aquele amigo dedicado, persistente, sempre suando quando tinha sobre os ombros algum problema dos grandes. Um problema como aquele. Por isso o detetive estava suando, mesmo durante o sono.
Miguel apertou a gaitinha prateada entre as mos, como se assim pudesse abraar o dono dela. E lembrou-se da ltima vez que ouvira o som da gaitinha, no forro do imenso vestirio do Colgio Elite, o esconderijo secreto dos Karas.

***

Tirando uma melodia preguiosa da gaita, meio na sombra, meio iluminado pela luz do entardecer que entrava pelas poucas telhas de vidro do forro do vestirio, Crnio confundia-se com a sombra de Calu, o colega e ator inigualvel, e com a elegncia de Magri. Ao lado da garota, Miguel sentia-se envolvido por aquele perfume que sempre o fazia sonhar. Entrando pelo alapo, a figura menor de Chumbinho, o ltimo dos Karas, veio juntar-se ao grupo, com aquele sorriso maroto.
 Emergncia mxima, Karas? O que houve? O Doutor Q.I. fugiu da cadeia?
 Espero que no, Chumbinho  respondeu Calu, demonstrando que uma emergncia mxima dos Karas no era ocasio para piadas.  Vamos ouvir por que Crnio nos convocou.
 frente do gnio dos Karas havia uma misteriosa caixa de metal.
Crnio parou de soprar a gaitinha quando percebeu que toda a ateno estava concentrada nele e no que ele tinha a dizer. Bateu a gaitinha na coxa para enxug-la e falou, sem olhar diretamente para ningum:
 A polcia est errada. Andrade est errado. O assassinato do professor Elias  um trabalho para os Karas.
Num relance, todas as tenses da luta contra a Droga da Obedincia voltaram  memria de Miguel. Todas as tenses vividas pelos cinco Karas ao lado do detetive Andrade. Todos os sustos. Todos os riscos. Agora, depois de tanta dedicao, depois de tanta eficincia provada pelo gordo detetive, ele e toda a polcia estariam errados a respeito do assassinato do professor Elias!
 Todo mundo est errado, no , Crnio? E o que voc sabe que a polcia no descobriu?
 Por enquanto no sei de nada, Miguel. Mas tenho certeza que no encontraremos pistas aqui em So Paulo. A resposta est em Mato Grosso do Sul. Est no Pantanal.
 Onde?!  riu Chumbinho.  Crnio, voc ficou maluco?

* * *
Miguel voltou a cabea para olhar pela vigia do Boeing e, nesse movimento, seu rosto encontrou os cabelos de Magri, que descansava a cabea em seu ombro. Miguel desejou que ela estivesse dormindo, para no sair daquela posio.

***
 Ora, Crnio  reclamou Calu, do meio das sombras do forro do vestirio  voc convocou uma emergncia mxima dos Karas para vir com essa histria? Pode explicar o que tem a ver o Pantanal de Mato Grosso com um professor de matemtica? O que tem a ver um professor de So Paulo com os jacars e as piranhas do Pantanal? O que tem a ver um assassinato em pleno asfalto paulista com aquela natureza fantstica? Pode explicar?
Crnio no respondeu, esperando que a avalanche de objees terminasse. Mas, por dentro, sorriu, seguro de sua inteligncia. Como sempre.
 Voc era o aluno predileto do professor Elias  argumentou Miguel  mas isso no o obriga a ser o detetive que vai solucionar esse brbaro assassinato. Ns estamos chocados, mas a verdade  uma s: nosso professor  mais uma vtima dessa brutalidade toda. Foi mais um latrocnio nojento, sem razo, sem explicao...
 Ele foi assassinado por causa de alguns trocados que trazia no bolso  acrescentou Magri.  Nem era dia de pagamento. Isso  So Paulo...
Crnio lembrava-se da genialidade do professor Elias, aquele homem magro, mal vestido, sempre de sandlias, que vivia a contar tostes em troca de educar os jovens das famlias mais ricas da cidade. Lembrava-se da originalidade do professor e de sua estranha teoria: para o professor Elias, a matemtica era a nica cincia verdadeiramente humana. Como? Para ele, isso era claro: a natureza cria seus fenmenos fsicos, qumicos, biolgicos e geogrficos independentemente da ao do homem, mas a natureza no cria teoremas, equaes, nem logaritmos. Isso so criaes humanas. A natureza produz laranjas, por exemplo, mas no soma ou subtrai laranjas. Isso  uma abstrao da inteligncia humana. Portanto, a matemtica  a nica cincia inventada pelo homem. Ento por que a maioria dos estudantes tem problemas com a matemtica? Bem, talvez isso ocorra com a maioria, mas nunca com os alunos do professor Elias. Para eles, a matemtica era uma cincia fascinante e o professor Elias um verdadeiro dolo.
 Eu me sinto na obrigao de descobrir o assassino do professor Elias, recomeou Crnio.  Foi como se tivessem trucidado algum da minha famlia.
 Mas o que o Pantanal tem a...
 Em primeiro lugar, Chumbinho, por que tanta brutalidade no assassinato do professor? Por que surr-lo daquela maneira para roubar alguns trocados? Ele no teria reagido. No era um homem de briga. Por isso eu acho que ele no foi morto perto do colgio, onde o corpo foi encontrado. Ele foi levado para algum lugar distante e torturado.
 Torturado? Mas que bobagem! Por que algum torturaria um professor de matemtica? Para descobrir o qu? As respostas da prxima prova?
  o que precisamos descobrir, Calu. O professor Elias devia saber alguma coisa, alguma coisa muito importante. Por isso foi torturado e morto. Depois abandonaram seu corpo na calada do Colgio Elite, para dar a impresso de um crime comum, cometido por um assaltante qualquer.
 Um assalto comum, seguido de morte. Essa foi a concluso da polcia, Crnio. Foi o que nos disse o Andrade. No h outra explicao.
 H mais uma coisa, Miguel: a malinha do professor estava abandonada ao lado do corpo. Fui visitar a viva dele, ontem  tarde. Ela me recebeu muito bem, procurando parecer conformada, mas...
Crnio pegou a caixa de metal, procurando concentrar-se na questo principal.
 Vocs sabem que o Elias trabalhava de vez em quando como fotgrafo para ganhar algum dinheiro extra, no sabem? A viva me deixou examinar a malinha dele. Tudo parecia em ordem, como verificou a polcia. Junto com outras coisas havia esta caixa de slides. So fotos do Pantanal feitas pelo professor durante os feriados da semana santa. Ele estava tentando vend-las para alguma revista.
O rapazinho levantou a tampa da caixa. Era um classificador especial para slides, onde eles ficavam em ordem, com uma fenda para cada um.
 O professor Elias era muito organizado. A ordem era para ele uma verdadeira mania. Examinei cuidadosamente todos os slides. Eles esto arquivados na seqncia em que foram fotografados, seguindo um roteiro de viagem. H somente uma exceo: estes trs slides que mostram passageiros descendo a escada de desembarque de um avio, no aeroporto de Cumbica, em So Paulo. Pela lgica deveriam estar no fim, mas esto bem no meio da srie.
 Estamos vendo. E da?
 Eu s posso chegar a uma concluso, Miguel. Aqui havia trs fotos que comprometiam algum. As fotos foram retiradas apressadamente e, em seu lugar, foram colocadas as trs ltimas. Algum matou Elias para roubar as fotos, depois de tortur-lo para descobrir se ele sabia mais alguma coisa. S que esse algum no queria que a polcia descobrisse qualquer ligao entre os slides e o crime. Por isso o criminoso substituiu os slides. Pode haver outra explicao?
 Pode haver dezenas delas, Crnio. E a sua me parece a mais forada.
   apenas a mais lgica, Magri. O professor Elias fotografou alguma coisa suspeita. Algo to grave que ele no poderia continuar vivo...
 Est bem, Crnio!  concordou Miguel.  Vamos supor que voc tenha razo. Mas, se os slides roubados so a nica pista, como vamos segui-la? Como vamos descobrir o que o professor Elias fotografou?
 Seguindo a mania de ordem dele. Se os slides esto em seqncia, no ser difcil ver o que o professor fotografou.
 Ver?! Como?
 Se as fotos esto classificadas pela ordem em que foram tiradas;  s percorrer o mesmo roteiro que o professor fez.  s ir visitando os mesmos lugares que ele visitou e localizar aqueles que fotografou antes e depois das trs que foram roubadas. Desse modo, talvez d para descobrir pelo menos onde teriam sido fotografados os trs slides que faltam!
Miguel sorriu, divertido, como se estivesse falando com uma criana, e no com o mais brilhante dos alunos do Colgio Elite.
 Parece lgico, Crnio. Mas de uma lgica totalmente maluca. Vamos supor que as trs fotos sejam de um barco, no meio de um rio. Mesmo que voc descubra o tal rio, como vai ficar sabendo que havia um barco passando por ali naquele momento? E, depois, como vai descobrir o que estava acontecendo naquele barco? E se as fotos forem da cara de algum? Voc at poderia descobrir o cenrio, mas nunca quem foi fotografado  frente dele.
 Pode ser, Miguel. Mas os slides so nossa nica pista. Foram feitos no Pantanal e  l que temos de conseguir a resposta. Tenho uma tia que  fazendeira no Mato Grosso do Sul, mais ou menos na mesma regio que o professor visitou, s margens da rodovia Transpantaneira.  a tia Matilde, uma parente distante que eu nunca conheci. Ela viveu muito tempo nos Estados Unidos e casou-se por l. Depois que o marido morreu, voltou para o Brasil e instalou-se na regio do Pantanal. J telegrafei pra ela dizendo que ns...
 Um momento, Crnio  interrompeu Miguel.  Ns no vamos para o Pantanal seguir uma pista sem p nem cabea. Deixe que a polcia...
 A polcia est atrs de algum assaltante desconhecido. Nunca vai chegar a concluso nenhuma!
 Tambm estou arrasado com o assassinato do professor Elias, Crnio. Mas esse no  um trabalho para os Karas,  um trabalho para a polcia.
Crnio olhou um a um os quatro companheiros durante o silncio que se seguiu  deciso de Miguel. Os olhares que recebeu de volta aconselhavam a desistir. Levantou-se e encolheu os ombros, reconhecendo a derrota.
 Ento tenho de ir sozinho.  s conseguir uma autorizao do meu pai para viajar, e acho que d para embarcar logo.
 Mas as frias ainda no comearam. Voc vai perder os exames finais do primeiro semestre!
 J fechei todas as mdias, Chumbinho.
 S que ganhar um zero em cada prova, no ? E, pela primeira vez, voc vai perder o primeiro lugar no Colgio Elite.
 Valer a pena se eu descobrir o assassino do Elias!
 Ento, boa viagem, Crnio  encerrou Miguel, sorrindo.  Deixe o nmero da caixa postal de sua tia. Telegrafaremos quando a polcia solucionar o crime. Boas frias. Dizem que o Pantanal  lindo, ainda mais agora, no meio do ano...


2   O ouro da Mfia
 

Miguel e o detetive Andrade conheciam um ao outro como se fossem a mesma pessoa. E confiavam um no outro como se fossem um s. Tinham se tornado amigos na luta, na tremenda aventura da Droga da Obedincia. Mas no era comum Miguel encontrar-se com o detetive Andrade sorrindo e  sua espera na sada do Colgio Elite.
Apenas metade do sorriso era de verdade. Miguel sentiu que o detetive tinha real prazer em rev-lo, como um pai  espera do filho na estao. Mas Andrade suava muito, enxugando a testa com um leno, apesar do friozinho de junho. E isso queria dizer que alguma coisa ia muito mal.
 Ol, Miguel!
Os dois tinham vontade de abraar-se, mas ambos sabiam que aquele no era apenas um encontro social. Nem se apertaram as mos.
 O que houve, Andrade? O detetive fez-se de surpreso.
 O que houve? Ora, nada de especial. Eu s estava...
... passando por aqui justo na hora da sada do Colgio Elite? E resolveu dar uma paradinha para saber como vo seus jovens amigos no ltimo dia de aula do semestre? Est certo, Andrade, vou lhe dizer como ns estamos passando. Eu, por exemplo, estou morrendo... morrendo de curiosidade para descobrir por que o meu amigo detetive est suando...
Andrade balanou levemente a cabea e sorriu.
 Est bem, Miguel. Aceita uma carona pra casa?
Andrade no estava com carro oficial. Tinha estacionado seu velho fusquinha em local proibido. Naturalmente, havia um papel amarelo preso ao limpador de pra-brisa.
 Inferno! Uma multa! Com o salrio miservel que a gente ganha do governo e ainda por cima uma multa para pagar!
Andrade amarrotou a multa, enfiando-a no bolso, e voltou-se para o garoto.
 Vejo que voc est muito bem, Miguel. E o Crnio, como vai?
 Por que pergunta justamente pelo Crnio?
 Voc no respondeu  minha pergunta...
 Crnio foi para a fazenda de uma tia dele, no Pantanal de Mato Grosso.
 Foi o que os pais dele me disseram. Pensei que voc pudesse me dar outra pista...
 Outra pista? Como assim, Andrade? O que aconteceu?
Andrade atrapalhou-se todo.
 Calma, Miguel. Na verdade no h nada para... quero dizer... Bem...  que um piloto chamado Bezerra apareceu morto no Pantanal. Devia ser um viciado em drogas, pois seus braos mostravam horrveis marcas de injeo e a autpsia revelou uma boa quantidade de herona no organismo. Foi encontrado numa canoa, com uma bala nas costas e a mo mutilada pelas piranhas...
 Nossa! Mas o que isso tem a ver com o Crnio? Andrade tirou alguma coisa de dentro do palet.
 Encontramos isto no bolso do piloto!
Na mo do detetive, Miguel viu uma gaitinha prateada. 

* * *
No Parque do Ibirapuera, onde a extenso dos gramados era uma garantia de isolamento, Miguel, Magri, Calu e Chumbinho comearam levando uma bronca de Andrade.
 Quer dizer que Crnio foi para o Pantanal na pista do assassino do professor Elias? Por que vocs no me avisaram? Inferno! No somos amigos? No h mais confiana entre ns?
 No  isso, Andrade  explicou Calu.  Apenas achamos que no havia nada para contar a voc. Pensamos que ele no descobriria nada. Que s passaria alguns momentos agradveis com a tia, l no Pantanal. A teoria de Crnio sobre o assassinato do professor Elias era absurda...
  claro que era absurda! O Pantanal no tem nada a ver com a morte do seu professor!  explodiu Andrade.  Mas, do jeito que vocs metem o nariz em tudo que no so chamados, Crnio deve ter se envolvido com problemas muito maiores do que o assassinato do professor. E problemas dos grandes  o que no falta l no Pantanal...
Magri tentou mostrar um pouco de otimismo:
 Espere a, Andrade.  muito cedo para dizer que Crnio desapareceu no Pantanal. Na certa, ele est fazendo uma linda excurso, desligado do mundo. Logo ele aparece, cheio de aventuras para contar. S porque o tal piloto estava com a gaita de Crnio no bolso, isso no quer dizer que...
 Quer dizer muito, Magri. Aqui est o "bolso" onde encontramos a gaitinha...
De dentro de um saco de papel pardo, Andrade tirou uma jaqueta ensangentada, com um buraco de bala nas costas!
 A jaqueta de Crnio!
 Como sabe que  dele, Magri?  uma jaqueta comum. Todo mundo tem uma dessas...
  dele, Calu. Est vendo este adesivo? Fui eu que colei...
Por um instante, a revelao da garota gelou todos os nimos.
 Ento o pobre piloto baleado estava vestindo a jaqueta de Crnio? - - raciocinou Chumbinho.  Mas isso no quer dizer nada. Crnio pode ter dado a jaqueta para ele, s isso.
Miguel falou, pela primeira vez:
 Crnio daria a jaqueta a algum sem antes tirar do bolso a gaitinha? Vocs acham que ele se separaria da gaitinha?
 Claro que no. Mas, e se a jaqueta foi roubada? E se...
 S o piloto assassinado poderia responder a essa pergunta, Chumbinho  cortou Miguel.  Mas os mortos no falam.
 Ele falou antes de morrer, Miguel.
Os quatro Karas olharam para o gordo detetive. Andrade enxugou a careca mais uma vez e continuou:
 O pescador que o encontrou, no rio Taquari, repetiu palavra por palavra o que disse o tal Bezerra, antes de morrer.
 Que palavras foram essas?
Andrade tirou a cadernetinha de anotaes do bolso.
 Esto aqui... deixa ver... O piloto disse: "Crnio..."
 Como?!
  isso mesmo, Magri. Ele disse: "Crnio... encontrem... o Ente... Formigas-paradas... Mike Sierrabrava...  o Ente...  Mike Sierrabrava... eu descobri...  ouro...  ouro puro... Crnio... pelo amor de Deus..."
Os Karas se entreolharam. Um piloto tinha sido assassinado no Pantanal e morrera falando no gnio dos Karas!
 O que quer dizer tudo isso, Andrade?  perguntou Miguel.  Quem  Mike Sierrabrava? Que "Ente"  esse? E que histria  essa de ouro e de formigas?
Andrade suspirou profundamente. Ele adorava aqueles jovens. Eram brilhantes, geniais! Mais corajosos que a maioria dos seus colegas da polcia. Mas eram apenas adolescentes. Na idade de estudar, ir a festas e deixar os grandes problemas para os mais velhos. S que um deles poderia estar em grande perigo, poderia at estar... No! Andrade nem podia admitir isso. Talvez aqueles garotos pudessem ajud-lo a... Talvez se lembrassem de alguma coisa que... No tinha jeito. O jeito era abrir o jogo.
 A histria  longa e macabra, meus queridos. Naturalmente vocs j ouviram falar da situao do Pantanal...
 O ltimo refgio da natureza selvagem  discursou Calu, como se fosse um poltico de provncia.  A maior reserva pura da fauna e da flora tropical. Mas, e da?
 E da que a selvageria no tem nada a ver com a natureza, l por aqueles lados. O Pantanal est dominado por contrabandistas, traficantes de txicos e assassinos de jacars. E o que  ruim sempre d um jeito de piorar: o crime organizado internacional descobriu o Pantanal!
 Oh, oh! Quer dizer que o negcio de sapatos e bolsas de couro de jacar  to bom que est interessando at aos grandes criminosos? At  Mfia?
 O morticnio dos jacars  uma barbaridade. Mas h outras. Quando se fala de crime internacional, fala-se principalmente do trfico de drogas. Esse sim  um negcio impressionante. O dinheiro nele movimentado  maior que todo o dinheiro mundial gasto com alimentao, sade e educao. Suas redes de distribuio fariam inveja  organizao da Coca-Cola. A indstria da droga  a que mais cresce no mundo. Por ano, os criminosos arrecadam meio trilho de dlares, isto , trs vezes mais do que todos os dlares em circulao no mundo todo. Um imprio econmico e militar que s perde para os Estados Unidos e para a Unio Sovitica...
A voz de Andrade calou-se para um instante de flego e, durante um breve mas profundo respirar, passou-lhe pela cabea que aquela no deveria ser uma simples questo policial. Era uma ameaa to sria que as foras armadas deveriam enfrent-la como uma operao de guerra.
 Vencer essa guerra s ser possvel com a unio de todos. Mas s vezes penso que o consumo de drogas pelos jovens  muito bem-visto pelos poderosos.  fcil manipular um drogado.  fcil controlar um jovem com a cabea cheia de fumaa ou as veias cheias de veneno. Difcil  controlar os anseios e as esperanas de uma juventude de cabea limpa e nariz em p. Por isso, para os donos do poder,  uma sada perfeita manter seus privilgios dissolvendo, a poder de fumaa e cocana, as idias rebeldes dos crebros dos jovens.
Crebros como os daqueles quatro queridos garotos, que ouviam seu desabafo com respeito. Mais uma vez, Andrade quis colocar todos no colo, de uma s vez, como se eles fossem os filhos que nunca teve.
 O crime organizado se enriqueceu com os txicos a tal ponto que a represso no consegue mais nada. A nica forma eficiente de combat-lo seria abalar suas finanas. Mas os fantsticos lucros dos criminosos sempre estiveram muito bem protegidos em depsitos secretos nos bancos suos e do Caribe.
 Que absurdo! Ento no  crime guardar dinheiro obtido com a venda de drogas?  revoltou-se Miguel.
 ... parece que os maiores crimes esto a salvo da lei...  concordou o detetive.  Por isso uma nova ttica tornou-se necessria: esses banqueiros esto sendo pressionados a consentir que as contas secretas sejam abertas  investigao. Assim, as fortunas desses criminosos seriam descobertas e bloqueadas, e o crime internacional ficaria enfraquecido.
 Se no  possvel acabar com o crime, a soluo  levar os criminosos  falncia, no ?
 Em teoria era isso, mas acontece que o sigilo dessas presses sobre os banqueiros foi quebrado, e os comandantes do crime organizado tomaram outras providncias. Como a proteo do dinheiro depositado no seria mais segura, h indcios de que os criminosos comearam a transform-lo em ouro.
 E o que seria feito com o ouro?
 Certamente guardado em lugar seguro, at que as coisas esfriassem. Um lugar sem lei, onde o ouro pudesse ficar escondido por algum tempo. E que melhor refgio do que o Pantanal!
 Ento era desse ouro que o piloto falava? Quer dizer que ele descobriu onde est escondido o ouro da Mfia?
 Talvez, Magri. S que esse Bezerra, o piloto, nunca mais poder contar onde est o tal ouro...
 Ele falou tambm em um certo "Ente". Esse Ente faz parte da conspirao?
 O Ente  a prpria conspirao, Miguel. Descobriu-se que ele  uma espcie de tesoureiro do crime organizado. Mas ningum descobriu quem  ele. Certamente algum poderoso e influente no Pantanal. Algum acima de qualquer suspeita, para o ouro da Mfia no correr nenhum risco.
 Conforme as palavras de Bezerra, o Ente chama-se Mike Sierrabrava  lembrou Chumbinho, que nunca esquecia qualquer palavra que ouvisse, mesmo que fosse uma nica vez.  E esse Mike Sierrabrava  um sujeito influente?
 No foi encontrado ningum com esse nome, Chumbinho.
 Voc falou com os pais de Crnio? Contou-lhes tudo?
 No, Magri. Inventei uma desculpa qualquer para telefonar procurando por ele. No lhes contei nada. No quis alarm-los. De que adiantaria? Temos to pouca coisa...
Miguel encarou o detetive e raciocinou:
 Tudo o que temos so as palavras do piloto. No sabemos como descobrir o tal Mike Sierrabrava.  claro que, como tesoureiro do crime, ele est usando uma identidade secreta. E a outra pista do piloto: "Formigas-paradas"? O que ser isso?
 Parece que  uma histria meio maluca. Os pantaneiros falam em espritos malignos que assombram a regio. Nem sei por que so chamados Formigas-paradas...
 No sabe, Andrade?  sorriu Calu, triunfante.  Mas  to simples! Espritos do mal, um grupo de misteriosos assassinos, Formigas-paradas, o Ente... Voc no v uma ligao nisso tudo?
 Que ligao voc est vendo, Calu?
 "Ente"  a pronncia de ant, que significa "formiga", em ingls!
 Quer dizer que...
 Quero dizer que os Formigas-paradas formam o grupo de bandidos encarregados de guardar o ouro. E o Ente  o formigo maior, o lder!
Andrade olhou com orgulho para o garoto.
 Oua, Calu. Eu sou apenas um detetive da polcia estadual. No posso me envolver oficialmente com investigaes fora da minha rea. Foi a gaitinha no bolso do piloto que me chamou a ateno. Descobri por conta prpria tudo o que estou contando. Mas eu quero que vocs fiquem de fora e deixem todas as investigaes e as teorias por minha conta.
 Mas voc no disse que no pode se envolver com um crime ocorrido fora do Estado de So Paulo?
 Eu tenho de me envolver, pois se trata de Crnio. Vou investigar por conta prpria, como um cidado comum. Tirei uma licena e estou de partida para o Pantanal.
Miguel olhou rapidamente para os outros trs e foi como se tivessem feito uma assemblia relmpago atravs de simples olhares.
 Ns tambm vamos, Andrade.
 Vocs?! De jeito nenhum! S por cima de meu cadver!
3  O inferno comea no paraso

 

A viso do cerrado mato-grossense e a sucesso montona das grandes reas desmaiadas no conseguiam desviar-lhe a ateno. Crnio olhava sem nenhum interesse pela vigia, enquanto o avio perdia altitude, preparando-se para o pouso em Campo Grande.
Seu objetivo era encontrar uma resposta, por pequena que fosse, para aliviar o peso que lhe trazia a lembrana do professor Elias. Do pobre professor massacrado.
O alto-falante do avio avisou que o rapazinho estava sendo esperado no aeroporto, no balco da companhia area.

***
Para algum como tia Matilde, que vivera tantos anos nos Estados Unidos, o domnio da lngua portuguesa continuava perfeito. Crnio releu o bilhete que recebera no balco e guardou-o carinhosamente no bolso da jaqueta. Tia Matilde se atrasaria e ele deveria esperar ali mesmo, no saguo do aeroporto.
Esperar... O gnio dos Karas aproximou-se das portas envidraadas que davam acesso s pistas. Do outro lado dos vidros, um empregado puxava um carrinho de bagagens sobre o qual havia uma jaula, desembarcada no mesmo avio em que Crnio viajara. Dentro, a sombra de um co negro.
A surpresa de uma sirene desviou a curiosidade de Crnio. Um grupo de funcionrios corria para a pista. Uma ambulncia e um carro de bombeiros lideravam a corrida, a toda velocidade.
No saguo, uma mocinha, ao lado de Crnio, olhava na mesma direo. Parecia uma ndia. Bem jovem, morena, de cabelos lisos e negros, carregando um beb envolto em uma manta colorida, apesar do calor.
Crnio sorriu para a mocinha. Ela no respondeu ao cumprimento.
O empregado que trouxera o carrinho abriu a jaula. O co negro, preso por uma coleira, foi entregue a um homem de bigode.
Nesse momento, os olhares do jovem gnio dos Karas, da mocinha ndia e do homem de bigode voltaram-se para um s ponto. Na cabeceira da pista, um C-47, velho bimotor cargueiro da 2.a Guerra, aproximava-se para pouso. Mesmo daquela distncia, Crnio notou que uma das hlices estava imvel.
A tragdia parecia estar prxima, mas ainda assim o rapaz no pde deixar de sorrir: o enorme avio estava pintado de rosa-choque!
Perseguido pela ambulncia e pelo carro de bombeiros, o avio rosa-choque tocou a pista e ricocheteou pesadamente, como uma bola cheia de gua. Os freios comearam a det-lo, mas o outro motor, ainda em funcionamento, fez o avio girar, arremetendo perigosamente contra a ambulncia, que tambm fez meia-volta. Por um momento, aquilo pareceu uma perseguio de comdia. A ambulncia e o C-47 pareciam querer evitar a coliso, mas quase sempre desviavam para o mesmo lado. Pelo jeito, o piloto deveria ser um motorista de fim de semana.
A ambulncia jogou-se sobre os canteiros gramados e o avio passou pesadamente, guinchando os pneus. Quase no fim do asfalto, guinou violentamente, agora com a velocidade sob controle.
Quando o avio imobilizou-se, o grupo de funcionrios j estava a postos, encostando a escadinha de desembarque. Desviando a ateno do rapaz, que estava curioso para ver quem desceria do avio rosa-choque, a porta envidraada foi aberta e o homem de bigode, com o co negro seguro pela coleira, entrou no saguo.
O gnio dos Karas afastou-se para dar passagem aos dois.
O co olhou para o lado do garoto e rosnou. Agarrada pelo homem de bigode, a correia esticou-se ao mximo e o latido furioso ecoou como um som dos infernos.
Crnio recuou, surpreso, e sentiu o corpo da mocinha ndia que se protegia atrs dele.
Dava para ler um brilho estranho no olhar do homem de bigode. Antes que acontecesse, o rapaz percebeu que a correia ia ser solta.
Por qu?
O co negro, num salto, investiu contra ele. Crnio desviou-se e girou no ar a maletinha que trazia, atingindo o animal em cheio. O co rolou de lado, recomps-se e saltou novamente. No queria nada com Crnio. Era a mocinha ndia que o animal queria. Mas, a essa altura, o rapaz j agarrara a correia. Susteve o primeiro tranco do salto do co em direo  mocinha, puxou-o e conseguiu prender a correia na maaneta da porta.
Com o corao aos pulos, tonto pela luta, pelas vozes excitadas e pelo latido histrico que o envolviam, Crnio voltou-se para a mocinha.
 Voc est bem?
O homem de bigode aproximava-se. A mocinha, olhos arregalados de medo, deu dois passos em direo ao rapaz e, inesperadamente, jogou o beb em seu colo.
 O qu...?
Sem uma palavra, a mocinha abriu passagem por entre o grupo de curiosos que j os cercava, e desapareceu. O homem de bigode empurrou o rapaz e enfiou-se por entre as pessoas, perseguindo a fugitiva.
 Pega! No deixa fugir!
Sem entender nada, Crnio olhou para o beb. Ele no acordara com todo aquele barulho.
O rapaz abriu delicadamente a manta e viu uma carinha de olhos fechados, azulada. Quase que com medo tocou o rostinho do beb. Apesar de todo o calor do centro-oeste, o beb estava gelado.
 Meu Deus! O beb est...
 Pega esse rapaz a!  um deles!
Era a voz do homem de bigode que, de revlver em punho, avanou em direo ao garoto. Instintivamente, Crnio recuou, como que protegendo o beb.
 Ei, espere um pouco!
A mo armada ergueu-se e socou a cabea do rapaz com a coronha do revlver. Uma bola de fogo espalhou-se por dentro de sua cabea. Agarrando o beb, Crnio escorregou suavemente para o cho. Tentou arregalar os olhos, tentou entender, mas sentiu-se entorpecido, enfraquecido, sentiu-se morrer.

***
No chegou a perder completamente os sentidos. Mas tudo,  sua volta, passava-se como um pesadelo, superpovoado de vultos disformes, com o burburinho de vozes misturadas, com a sensao de mos que o apalpavam, que o revistavam. A cabea doa e parecia crescer por dentro, parecia querer explodir.
 Abram caminho...  o Senador...
Um vulto maior que todos os outros debruou-se sobre o garoto. Os homens que o revistavam afastaram-se um pouco, respeitosamente. Mos enormes ergueram-lhe suavemente a cabea, sustendo-o pela nuca.
O homem de bigode estava de volta e ajoelhou-se tambm, ao lado de Crnio.
 Ele est limpo, tenente  adiantou-se uma voz.  No encontramos nada. S se a coisa estiver com a garota, mas ela fugiu.
Os latidos do co negro continuavam, agora numa histeria montona.
O tenente de bigode falou, excitado:
 O co ainda est latindo. A coisa ainda est por aqui.
 No pode estar, tenente. Desculpe, mas no h nada com o garoto, nem na maleta. Deve estar com a mocinha. Ela jogou o beb no colo desse a e fugiu. Talvez ainda seja possvel peg-la...
Em meio a uma nvoa vermelha, que lhe prejudicava a viso, Crnio viu o tenente de bigode tomar o beb de seus braos, levantar-se e aproximar-se do co. Os latidos aumentaram, furiosos.
A voz firme, de bartono, do grandalho a quem chamavam Senador, fez-se ouvir pela primeira vez:
 H algum mdico por a? Precisamos de um mdico!
O tenente afastou a manta e olhou o beb. Sua expresso foi de nojo.
 Algum chamou um mdico?  ofereceu-se algum.  Eu sou mdico!
A voz do tenente comandou, agressivamente:
 O senhor  mdico? Examine este beb.
 Examine o rapaz primeiro, doutor. Ningum se ops  voz grossa do Senador.
O mdico ajoelhou-se ao lado do garoto. Crnio no conseguia articular palavra. Mal sentia as mos que o examinavam. A pequena surpresa de uma agulhada no brao fez com que ele abrisse um pouco os olhos. Viu depois o mdico levantar-se e examinar o pacotinho que estava nos braos do tenente. A dor aumentava. Aos poucos, uma espcie de entorpecimento crescia tambm, como um alvio. Antes que a nvoa vermelha escurecesse por completo, conseguiu ouvir a voz do mdico:
 Barbaridade! Como algum pde fazer uma coisa destas?
As vozes, os latidos e toda a excitao desapareceram repentinamente dos sentidos de Crnio, como se algum tivesse desligado um rdio.

4 A voz grossa do Pantanal
 

Aquela voz grossa era segura, confortadora. E a figura do Senador, meio debruado sobre o leito do hospital, trouxe a Crnio um tranqilo despertar.
 Muito bem! Nosso corajoso garoto j est de volta ao mundo dos vivos. Pelo menos ao mundo dos acordados!
 Eu... eu estive desmaiado todo esse... ?
 No. Voc dormiu devido a um calmante que o mdico lhe aplicou. A pancada no pegou de jeito. O mdico disse que est tudo bem, Crnio. Tia Matilde contou que  assim que o chamam. Crnio! Se voc for to inteligente quanto tia Matilde  engraada, voc deve ser um gnio!
Crnio sorriu meio sem jeito, sem responder.
 Acha estranho que eu tambm chame sua tia Matilde de tia? Ela tambm  a tia de todo o Pantanal. Uma tia muito querida, muito querida mesmo.  assim que todos a chamamos: tia Matilde!
O rapaz sentou-se na cama e apalpou um pequeno curativo ao lado da orelha.
 O senhor  um senador? Desculpe, mas eu nunca... O grandalho fez um gesto evasivo e sentou-se ao lado de Crnio.
 No. Eu no sou um senador, mas todos aqui me chamam de Senador.  uma espcie de respeito. E respeito nunca  demais.
O rapaz estranhou a lgica daquele lugar, onde chamavam de senador qualquer poltico poderoso, e de tia qualquer velhinha engraada.
 Todos lhe devemos muitas desculpas, garoto. Acredite, no costumamos receber nossas visitas a coronhadas. Aquele co que voc dominou  treinado para farejar txicos. Quando ele latiu em sua direo, estava na pista certa, mas o tenente no devia t-lo soltado em cima de voc. Pior ainda foi a coronhada. Mas o tenente s podia pensar que a cocana estava...
 Cocana? Que histria  essa?
 Voc no sabe de nada, no ?  claro que no sabe. Esta  uma das muitas histrias tristes que esto transformando este paraso em um enredo sinistro. No fossem os mosquitos, qualquer um diria que Ado e Eva foram expulsos do Pantanal e no do den. Este  o pedao mais lindo do planeta, mas do jeito que vo as coisas o paraso est se transformando em verdadeiro inferno. Acho que j  um purgatrio para muita gente...
 Mas o senhor disse que a cocana...
 A cocana  apenas um dos ingredientes do panelo infernal que est sendo cozido por aqui. As drogas, o contrabando, o desmatamento, a destruio dos ndios,  brutal extermnio dos jacars e de tudo quanto  nico no Pantanal misturam-se como uma receita dos demnios. No sei se vai ser possvel encontrar um antdoto para todo esse envenenamento.
O Senador foi interrompido pela entrada do mdico. Era o mesmo que atendera o jovem no aeroporto. Junto com ele, entrou outro homem, que Crnio imediatamente reconheceu: o tenente de bigode que o atingira!
 Oh, oh!  gozou o Senador.  Chegou algum que realmente deve desculpas!
 Com licena, Senador  gaguejou o tenente, agora bem menos  vontade do que na batalha do aeroporto.   que eu queria falar com o garoto antes de ele ir embora. Olhe, eu no sabia que tia Matilde era sua tia de verdade. Na hora, eu pensei que...
 Deixa pra l  acalmou-o Crnio.  Eu no estou zangado com voc.
 Nesse caso...  continuou o tenente, com uma timidez que contrastava com a agressividade exibida no aeroporto ...nesse caso, o senhor talvez possa dizer  tia Matilde que eu no...
 Onde est tia Matilde, Senador?  interrompeu Crnio, incomodado com o jeito servil do tenente.  No conheo minha tia, sabe? Esta seria a primeira vez que nos encontraramos.
O Senador gargalhou alto, perturbando certamente metade do hospital:
 Ah, a velha tia Matilde estava chegando naquele avio rosa-choque, justo no momento de toda aquela confuso. Ficou aflitssima quando viu seu sobrinho desmaiado e providenciou tudo para que voc tivesse o melhor atendimento aqui no hospital. Depois voltou para o aeroporto e brigou com todo mundo, como se o pessoal de terra fosse responsvel pela falta de presso de leo nos motores daquela velha relquia da 2.a Guerra Mundial. No deixou que nenhum mecnico tocasse no avio rosa-choque. Mandou tranc-lo em um hangar e colocou a tripulao de guarda, como se algum pudesse se interessar por aquela velharia... Depois alugou um jatinho e foi-se com Pepino, seu piloto talo-americano, em busca de seu prprio mecnico, dizendo que no confia "nos incompetentes brasileirinhos"! Ah, voc precisava conhecer o mecnico de tia Matilde:  outro talo-americano, to velho quanto o C-47 que...
Crnio ouviu, divertido. Mesmo sem conhecer a prpria tia, ele j podia fazer uma idia de como seria aquela figura...
 A pancada na cabea foi menor que o susto, meu rapaz  diagnosticou o mdico, depois de um rpido exame.  Teve sorte. Est pronto pra outra.
Disse a velha piada de todos os mdicos, rabiscou uma ordem de alta hospitalar e retirou-se.
 Tambm j estou indo, garoto  trovejou o Senador.  O que pretende fazer? Posso lev-lo a um hotel enquanto espera tia Matilde consertar aquele paquiderme cor-de-rosa...
A lembrana do avio avariado deixou Crnio inquieto. Esperar no estava nos seus planos.
 O conserto do avio vai demorar, no vai?
 Talvez uns dois dias. Por qu? Est muito ansioso para iniciar suas frias no Pantanal?
 Ansioso? Oh! no...  que...  que eu vim por causa de um professor amigo meu. Ele me falou de tanta coisa fascinante que fiquei curioso demais. Mal d para esperar. Gostaria de fazer o mesmo roteiro que ele fez.
O Senador voltou-se para Crnio logo que ouviu a palavra "professor". Parecia interessado.
 Seu professor esteve aqui? Professor de geografia, ou de biologia, suponho.
 No. Professor de matemtica. E fotgrafo amador. Professor Elias...
O Senador e o tenente trocaram um rpido olhar que no escapou  ateno de Crnio. O rapaz disfarou, ajeitando a pequena bandagem e dando a impresso de que nada tinha percebido.
 O professor Elias esteve aqui na semana santa. Talvez o senhor o tenha conhecido, Senador. Ele andou pelo oeste da rodovia Transpantaneira...
 A oeste da Transpantaneira?  cortou o grandalho Vai ver foi l pelos lados das minhas terras e da fazenda da tia Matilde. Bem,  fcil ter sido pelos lados da fazenda da tia Matilde. Ela est por todos os lados!
  para esses lados que eu gostaria de ir, Senador.
Gostaria de ver o que o professor Elias viu.
Sem olhar para o garoto, subitamente interessado nas dobras do lenol, o Senador perguntou:
 Voc se encontrou com o seu professor antes de vir para c?
Crnio resolveu mentir. No saberia explicar por qu, mas resolveu no falar da morte do professor Elias.
 No... H duas semanas eu no o vejo. Antecipei minhas frias e, antes de embarcar para c, fui cuidar de uns cursos extras que pretendo fazer...
O Senador olhou com estranheza para Crnio, como se custasse a compreender o que ouvia. De repente, como se despertasse, gargalhou alto e deu um estrepitoso tapa nas costas do garoto, decidido.
 Ento est feito. Deixamos um recado para tia Matilde e partimos para o Pantanal hoje mesmo. A Fazenda Rosa-Pink  o meu vizinho. Voc fica nas minhas terras at...
 Fazenda Rosa-Pink!?
 A fazenda de tia Matilde. Tudo  pink, tudo  rosa para ela. Voc vai ver. Aceita o convite?
 Aceito!
Subitamente apressado, o Senador encaminhou-se para a porta.
 Apronte-se. Daqui a uma hora passo para busc-lo. Vamos para o Pantanal, garoto!
Saiu espalhafatosamente.
O tenente de bigode ia sair tambm, quando foi detido pela voz de Crnio:
 E a cocana, tenente? Onde estava? Nas roupas do beb?
Uma expresso de cristal gelado passou, por um instante, pelos olhos do tenente. Crnio percebeu que ele se sentia mais seguro lidando com desgraas do que pedindo desculpas.
 No, a cocana no estava nas roupas do beb, senhor sobrinho de tia Matilde. Estava no beb. O corpo dele estava costurado do pescoo  virilha. Os malditos esvaziaram as entranhas de um pobre cadaverzinho e o encheram com drogas!


5  Trs vezes destruio

 
O caminho que Crnio e o Senador tinham de fazer atravs da pista do aeroporto at o Tucano que os levaria ao Pantanal passava pelo hangar onde se via aquele estranho avio rosa-choque  espera do mecnico.
Bojudo como um hipoptamo, l estava o fantstico C-47, com o prefixo PT-MSB pintado em preto. Um cargueiro pesado, que prestava servio h mais de cinqenta anos. E muitas horas de vo o C-47 ainda teria pela frente: a fortuna de tia Matilde era suficiente para manter o avio sempre novo, como se tivesse sido construdo no ms passado.
 Esse calhambeque areo  um animalzinho de estimao para tia Matilde.  o "xerimbabo" dela, como dizem por aqui  explicou a voz grossa do Senador.  Sua tia no olha despesas para conserv-lo. Acho at que, aos poucos o avio foi totalmente reconstrudo.  como se fosse novo mesmo. Do jeito que saiu da fbrica. Com exceo da cor,  claro!
Crnio achou mais graa na gargalhada do que na brincadeira do Senador.
 No seria mais prtico e mais barato troc-lo por um avio novo? Mais moderno?
 Claro que seria. Mas ningum gosta de se desfazer do seu xerimbabo...
Aos poucos, o perfil de tia Matilde ia se tornando mais ntido na mente do sobrinho. Uma pessoa rara, com quem Crnio gostaria de conviver em uma temporada de frias mais descontrada do que imaginava que seria aquela. Desta vez sua preocupao era descobrir uma pista do assassino do professor Elias.
O Senador pareceu adivinhar o pensamento do garoto:
 Andei perguntando por a e descobri algum que esteve com o seu professor. Ele andou pelo Taquari, fotografando tudo o que via. Se voc quer conhecer o Pantanal pelas mesmas trilhas do professor, eu j sei o jeito.  s usar o mesmo guia que ele empregou, um ndio chamado Robson. Est em Nhecolndia. Mandei passar um rdio para l dizendo que eu preciso do tal Robson. Ele estar nos esperando na minha fazendinha.
O Tucano podia no ser to espalhafatoso quanto o C-47, mas discreto  que no era. Tinha uma cor amarelo-gema e duas faixas verdes que o decoravam de ponta a ponta. Crnio embarcou, espantado com o poder daquele fazendeiro grandalho. Em pouco mais de uma hora, o Senador seria capaz de descobrir qualquer coisa e mandar quem quisesse para o lugar que bem entendesse!

***
O Tucano amarelo voava baixo sobre o Pantanal, em direo ao aeroporto particular da "fazendinha" do Senador.
 Minhas terras ficam bem prximas da Fazenda Rosa-Pink, a sede do reinado de tia Matilde. Ah, so terras que no acabam mais! Sua tia est sempre comprando novas fazendas e aumentando sempre mais as terras da Rosa-Pink. Certa vez algum perguntou a ela se pretendia comprar todo o Pantanal. Sabe o que ela respondeu? Que no queria todas as terras, s as do vizinho!
A gargalhada do Senador sobreps-se ao ronco do avio. Aos poucos a alegria foi morrendo, e o grandalho ficou srio, olhando fixamente pela vigia.
 Olhe para baixo, Crnio. Veja o paraso. Aqui a natureza se protegeu cercada pela cordilheira dos Andes, a leste, e pelas serras de Mato Grosso, a oeste. Voc vai conhecer a mais linda reserva natural do mundo. Mas, se voc olhar direito,  capaz de chorar. A estupidez, a misria e a ganncia esto acabando com o Pantanal. Ou talvez s a ganncia, porque a misria  resultado da ganncia. E a estupidez  sua nica explicao.
A fala daquele homem estava emocionada. Cada frase dele era um discurso.
 Imagine se voc visitasse o mais completo museu do mundo e notasse o desaparecimento de uma tela de Van Gogh, descobrisse um quadro de Modigliani todo furado com a brasa de cigarros e um Picasso cortado a gilete...
Fez uma pausa, para deixar fazer efeito a horripilante comparao.
 Veja os ndios, por exemplo. Voc os encontra. Mas sero eles ainda ndios? Ser que podemos chamar ndios esses seres sem espao para caar como sempre fizeram seus antepassados? Essas pessoas que j trocaram seus nomes tribais por Terezinha e Sebastio? Esses homens e mulheres cada vez mais atrados pelas bugigangas dos homens brancos? Cada vez mais contaminados pelas doenas que estamos trazendo para c? Este  o nosso Van Gogh. Est desaparecendo.
Crnio props uma esperana:
 Alguma coisa ainda pode ser feita, Senador. O governo pode proteger as terras indgenas. Pode garantir que cada tribo viva em paz, sem a invaso dos brancos. Os ndios tambm so brasileiros. Merecem a proteo do governo.
O Senador olhou para o rapaz com carinho. Mas com aquele carinho de adulto, que age como se os jovens no entendessem nada do mundo e das pessoas.
  fcil falar. A identidade cultural de um povo depende de sua atividade econmica. Nossos ndios conhecem muito bem a agricultura e cuidam muito bem de suas roas h sculos. Para competir com os agricultores brancos, eles precisam de tratores, de transporte, de mercado para seus produtos. Mas, para continuar como ndios, eles precisam caar, pescar e colher o que a natureza oferece. Sem a atividade do "ach-mat-cum", como eles prprios dizem, eles no sero mais ndios. Mas, para isso, so necessrias grandes extenses de floresta virgem. Perseguindo a caa, o ndio anda o dia inteiro, percorre quilmetros de mata. Mas como o governo ir reservar quilmetros de mata para uma tribo de duzentos ou trezentos indivduos apenas, quando h milhares de outros brasileiros sem terra, sem ter onde trabalhar, sem ter como se sustentar?
Crnio no estava to mal informado quanto o Senador parecia julgar.
 A verdade, Senador,  que no final das contas a terra acaba sendo tomada do ndio por algum grande fazendeiro, que derruba a mata, planta capim e deixa algumas reses pastando, sem dar sequer empregos para esses brasileiros sem terra.
O Senador sorriu, como se no achasse graa no assunto.
  isso mesmo, Crnio. O problema do ndio faz parte do grande problema que  a concentrao de terras nas mos de poucos. E o resultado  a misria da maioria. Ai, como pode funcionar um pas em que quando se nasce todas as terras j pertencem a algum?
Por um momento somente o ronco dos motores do tucano respondeu  pergunta do fazendeiro grandalho, que culpava os fazendeiros pela misria do Brasil.
 A misria... Voc sabe, Crnio, que atualmente um lavrador brasileiro consome um dcimo das protenas que consumia um escravo cem anos atrs? ... antes os fazendeiros cuidavam melhor dos seus escravos do que os fazendeiros da atualidade cuidam dos trabalhadores livres...
Crnio ficou imaginando que tipo de liberdade era essa.
 O que espanta  continuou o Senador   notar a que ponto chegou a chamada "civilizao": no mesmo lugar em que um campons passa necessidades,  subnutrido, doente e desdentado, os ndios vivem fortes e saudveis. D pra entender?
 Parece que bastaria ensinar os brancos a viver como os ndios, em comunho com a natureza, e ensinar aos ndios as coisas boas da civilizao dos brancos.
O Senador pousou a mo nos cabelos do garoto como um pai.
 E todo mundo viveria de mos dadas, no ? Voc tem toda a razo. Todas as razes do seu corao de menino. Mas o que voc est propondo  impossvel.  lindo, mas  impossvel. O nosso sistema exige que um lavrador produza muito, cada vez mais, sem preservar a natureza. O que ns chamamos "progresso" no existe nas sociedades indgenas. Eles no precisam de progresso. Vivem do mesmo modo h geraes, utilizando os mesmos conhecimentos dos seus antepassados. Qualquer "progresso" desorganizaria seu modo de vida. No existe progresso com ordem, por mais que escrevam isso em todas as bandeiras. Progredir significa desorganizar tudo o que est em ordem, propondo um novo tipo de organizao. Levar o progresso ao ndio  o mesmo que destru-lo. Significa quebrar o equilbrio harmonioso do ndio com a natureza. Significa mat-lo.
Crnio sentia-se confuso. Aquilo tudo era demais para ele. Como aceitar que o progresso pudesse ser mau?
 Ah, Crnio, o progresso!  suspirou o Senador.  Quem pode deter essa praga que chamam progresso? Aqui no Pantanal, o ndio j est deixando de fazer parte do meio que ele controlava h geraes sem alter-lo em nada. Hoje, o ndio pantaneiro mata jacars para comprar radinho de pilha e culos escuros. Em troca de uma paga ridcula, dizima a natureza para plantar o capim que engordar o gado das grandes fazendas. E o pagamento servir, por exemplo, para comprar acar refinado. Nossos ndios j esqueceram que foram eles mesmos que descobriram as folhas de stevia, um adoante trezentas vezes mais doce que o acar dos brancos. Nossos ndios esto desaparecendo e sendo levados a contribuir para o prprio fim...
O Tucano voava baixo e Crnio olhou ansioso as cores do Pantanal, como se fosse possvel ajudar os ltimos ndios antes que eles desaparecessem.
 Esta beleza est acabando, Crnio.  o quadro de Modigliani furado com brasa de cigarro. A derrubada e a queimada das rvores vo levar o Pantanal  extino em algumas dcadas. J no h lugar para pssaros, capivaras, onas e quatis. Derruba-se a natureza, queima-se a natureza, para criar pastagens. Depois, quando os arbustos novos comeam a aparecer, mostrando o esforo de recuperao do Pantanal, os biocidas so pulverizados periodicamente para matar esses arbustos e manter "limpas" as pastagens... O vento leva esses venenos para todos os lados, envenenando e matando animais e vegetao. Aqui, o povo chama esses produtos qumicos de "mata-mato". S que isso est matando muito mais do que o povo pode suspeitar...
Sacudiu a cabea violentamente, como que espantando um pesadelo.
 Ah, o progresso! Ah, a civilizao! Voc no se sente orgulhoso de tudo isso? Mas deixe s eu falar do nosso Picasso, o quadro cortado a gilete deste museu. Voc ver essa barbaridade no Pantanal. Em nenhum lugar do mundo, o equilbrio da natureza  to perfeito e to fantstico como aqui. Esse equilbrio depende de uma corrente onde um elo apia o outro. Tanto no entrelaamento da vida quanto no entrelaamento da morte. Aqui, a morte  vida. Cada ser que desaparece ressurge garantindo a sobrevivncia de outro. Mas h pessoas que acham muito elegante andar com sapatos e bolsas feitos de couro de jacar. Para satisfazer essa vaidade, dois milhes de jacars so mortos todos os anos por aqui. E o jacar  responsvel por no haver esquistossomose no Pantanal, voc sabia? Ele  tambm o elo da corrente que mantm a populao de piranhas em equilbrio. Sem eles, as piranhas esto se reproduzindo aos milhes e dizimando os peixes menores. Neste museu, no lugar da tela de Picasso, daqui a pouco estar um quadro cinza e negro, retratando um pntano nojento, povoado somente pelas piranhas... E todos que aqui vm parecem felizes em participar desse festim de destruio. Ao longo da rodovia Transpantaneira divertem-se atirando em pssaros s pelo prazer de v-los cair. Boiando nos corixos, nos pequeninos rios, o que se encontra so latas de cerveja e frascos plsticos...
Um tripulante apareceu pedindo que atassem os cintos de segurana. O Tucano preparava-se para pousar. O Senador recostou-se na poltrona.
 Aqui tudo depende do modo de olhar o Pantanal, Crnio. Voc pode conhecer o paraso, mas o inferno est prximo, est bem a, para quem quiser ver...

***
O Tucano pousara em uma pista aberta h pouco tempo, um rasgo na mata, feito a trator, como uma estrada que vem de nenhum lugar e vai para lugar algum.
Como a dar as boas-vindas ao seu parente amarelo, um bando de tucanos passou voando, inclinados para a frente pelo peso dos bicos.
 distncia de um grito do pequeno aeroporto, a casa da fazenda espalhava-se por uma imensa clareira. O movimento de empregados era intenso, como seria de se esperar de uma fazenda de um grandalho com uma voz como aquela. Era a perfeita imagem de qualquer latifndio brasileiro. Tudo parecia muito normal. Somente um detalhe no escapou a Crnio: entre os empregados no havia uma mulher.
 O tal guia ainda no apareceu, garoto  o Senador deixara Crnio na varanda da casa da fazenda e agora voltava com a informao.  Mas no deve demorar. Estar aqui amanh de manh, quando voc acordar.
Em lugar de ces e gatos, uma meia dzia de sagis e um macaco-prego eram os animais de estimao naquela fazenda. Formavam um grupo amigvel e barulhento, sempre  roda do visitante e  espera de alguma fruta ou algum carinho. O mais animado era Cabo Malandro, o macaco-prego, que gostou do colo de Crnio. Tinha o tamanho de um beb e uma curiosidade equivalente. Cutucava os bolsos do garoto como se ali fosse um armazm de amendoins.
Estava mido, abafado. O calor era forte, apesar de j haver escurecido h mais de uma hora. Crnio cocou a cabea do macaquinho, que se enrolou de prazer.
O rapaz sentia-se mole. Havia comido um pacu recheado, e o Senador o havia feito experimentar um clice de licor de pequi. Agora, o cansao daquele dia de surpresas comeava a abat-lo.
 Voc deve estar exausto  observou o Senador.  O seu dia no foi fcil. Bem, o meu tambm no foi. Acho que o certo  termin-lo por aqui. Amanh ser um dia melhor. Sem avies, sem cachorros ferozes e sem sustos. Voc vai adorar o Pantanal.
 Ser que ainda resta alguma coisa para se ver no museu do Pantanal?
 Resta muito, garoto. Muito! Esquea o que eu lhe disse no avio. Deslumbre-se! O guia que ir com voc  um dos melhores. Ser fcil encontrar a pista que voc est procurando.
 Pista? Que pista, Senador?
 Eu disse "pista"?  um modo de dizer "seguir a trilha". No  isso o que voc pretende? Seguir a trilha do seu professor?
Antes que Crnio pudesse responder, um rudo de gente veio da escurido. Os dois estavam na varanda da casa, e demorou um pouco at que as vozes se transformassem em um grupo de empregados sob a luz de lampies.
Carregavam um corpo imvel.
 Veja, Senador. Ns...
Pareceram desconcertados ao notar que o Senador no estava sozinho. Depois de um momento de hesitao, um deles falou:
 Acabamos de encontrar. Este nunca mais vai matar jacars.
O corpo foi colocado no cho da varanda, aos ps do Senador. Era um homem magro, mal vestido. De sua boca aberta, atochada com terra, saam formigas enormes, carnvoras, que se espalhavam pelo rosto e entravam pelas narinas.
Cabo Malandro veio espiar de perto, assustado.
O empregado explicou, com o olhar inseguro, pulando de Crnio para o Senador, como se temesse falar algo que no devia:
 O infeliz estava  beira do Taquari, pendurado numa rvore como um papagaio. Acho... acho que foram os Formigas-paradas...
O Senador interrompeu, autoritrio:
 Esqueam essa bobagem de espritos malignos. No h nada de espiritual num assassinato. Isso foi feito por gente! Lavem o corpo e tirem essa sujeira da boca dele. Amanh vamos lev-lo para Nhecolndia.
Enquanto os homens desapareciam na escurido, levando o cadver, o olhar de Crnio procurou o Senador, pedindo uma explicao.
  um "coureiro", garoto. Um desses que vivem nos corixos, pelas madrugadas, matando jacars.
 Mas como ele foi morto? Por qu? E por que as formigas?
O Senador sorriu tristemente. Olhou para a escurido como se procurasse uma ameaa  espreita nas sombras.
 Isso  besteira! O povo ignorante fala dos Formigas-paradas, assombraes que atacam os coureiros solitrios. Mas ningum ainda viu nenhum desses fantasmas. Besteira!
***
Antes de deitar-se, Crnio examinou a caixa de slides, amassada porque estava na malinha com que ele havia golpeado o co negro, farejador de cocana. Tudo em ordem. Ele haveria de encontrar o lugar onde tinham sido fotografados os slides roubados,
 Formigas-paradas... Assombraes... Quem mataria um homem e depois lhe encheria a boca com um bolo de terra e formigas? Parece um aviso, ou uma espcie de vingana macabra!
O sono avanava depressa e Crnio adormeceu pensando naquele enorme fazendeiro que o trouxera a um lugar como aquele, onde vivia aparentemente sem famlia, sem mulher e sem filhos, e onde s trabalhavam homens. Uma fazenda de solteires? Em pleno Pantanal?

6 E se chamava Robson
 

Crnio foi acordado em meio  mais linda madrugada que poderia ter sonhado. Do negror absoluto, as cores iam surgindo, separando-se e definindo-se sem pressa, em direo a luzes mais diversas que as cores do arco-ris. Com o colorido, amanheciam tambm os sons, numa sinfonia que comea com delicadeza e cresce lenta, misturando os acordes, at todos os instrumentos tocarem juntos, levando o ouvinte a sentir-se parte daquele grande espetculo chamado "vida".
O Senador no estava  vista. Crnio lembrou-se de ter ouvido vagamente um rudo de motores em meio ao seu sono pesado. Deveria ser o Tucano amarelo levando o cadver do coureiro.
Ainda estava inebriado por tudo o que via, quando lhe apresentaram o "quebra-torto", o caf da manh de todo mundo naquele lugar. Um angu de farinha com peixe, quela hora da madrugada!
 Coma, garoto. Isso  a sustana do Pantanal.
 Estou sem fome...
Por sorte, havia um tipo de po pesado, ainda quente, e leite  vontade, cheiroso e espumante. Crnio comeu valentemente e distribuiu po molhado em leite para o Cabo Malandro e para os outros macaquinhos.
Um empregado veio informar-lhe uma mensagem de rdio de tia Matilde. O conserto do avio rosa-choque corria bem e, dentro de um ou dois dias, os dois finalmente se encontrariam.
Iluminado pelas cores do amanhecer, o guia ndio esperava pelo garoto ao p da varanda.
Um ndio! Aquilo era um ndio? Tinha um porte altivo e um fsico de dar inveja a qualquer atleta. Mas, pelo jeito, estava disfarado de branco. Cabelos penteados e fixados  fora de gomalina, culos escuros e uma camiseta nova, onde se lia o nome de uma universidade americana. Pendurado na cintura, um radinho a pilha berrava um rock de sucesso, quase impedindo a conversao.
Aquilo era um ndio. E se chamava Robson!
Poucas palavras Crnio havia ouvido dos empregados daquela fazenda. Pareciam todos srios demais, calados demais. Mas aquele ndio era diferente. Trazia um sorriso deslumbrado no rosto que no se apagava nunca, e falava sem parar, sempre alto, disputando com o volume do radinho a pilha.
  melhor ir pela gua, moo novo  props o guia, sem tocar no preo dos seus servios, que pelo jeito tinha sido acertado pelo Senador.  J tem uma chalana preparada. Hoje a gente corre os corixos at o ninhal da praia vermelha. Depois...
Antes de partir, p gnio dos Karas voltou para o quarto em busca da caixa de slides. A malinha estava aberta, jogada na cama, e suas coisas estavam espalhadas por todos os lados.
A caixa de slides tinha desaparecido!

***
O ndio Robson fazia a chalana navegar livremente. Os remos apenas relavam a superfcie das guas, deixando a correnteza conduzir a embarcao suavemente.
Crnio comeou a entender o que o Senador queria dizer ao comparar o Pantanal ao paraso. Estavam num corixo que ia dar no rio Taquari, cercados pelo roxo dos ips, no auge da florao, e pelo amarelo das flores dos cambars. As rvores formavam enormes ramalhetes separados de quando em quando pelas salinas, lagoas coloridas de gua salgada, lembrana do lendrio mar dos Xaras, que h milhares de anos dera origem ao Pantanal. Em volta dessas lagoas, o sal no deixava crescer nenhuma vegetao.
As guas do corixo eram tranqilas, e Crnio podia ver peixes coloridos, como em um aqurio.
 Pena que voc no quis pescar, moo novo. Se quiser, Robson pode mostrar as melhores grotas para descobrir dourado, pacu, pintado e at ja!
 Obrigado, Robson. Prefiro olhar, s.
 Bonito o nome Robson, no  mesmo? Conheci um moo branco e rico com esse nome. Pedi e ele me deu o nome. Agora  meu, Robson!
 Ele lhe deu seu nome?  brincou o rapaz.  E ficou sem nome nenhum?
 No. Eu dei outro nome pra ele. Dei o nome de Sariru.
 E ele?
 Ele riu. Deve ter ficado contente! Crnio no disse nada.
 Robson  o melhor guia do Pantanal, moo novo  gabou-se o ndio, falando de si como se fosse outra pessoa.  Robson estudou, sabe ler. Conhece tudo e por isso cobra caro. No  como esses ndios que andam por a. No sabem nada e aceitam trabalhar pelo dinheiro de duas pingas. Por isso acabam devendo tanto nos armazns dos contrabandistas de peles que o jeito  matar jacars  noite para cobrir as dvidas!
Robson denunciava uma das tticas infalveis dos contrabandistas, que faziam de cada ndio miservel do Pantanal um assassino de jacars. Um destruidor do prprio meio, cuja destruio o tornara miservel.
 Teve um turista que disse a Robson que o nome Pantanal est errado. Que pantanal  o mesmo que pntano, e que pntano  um lugar escuro, com rvores mortas. Robson nunca viu esse tal de pntano e nem quer ver. O que Robson sabe  que o Pantanal nunca foi escuro e nunca deu medo a ningum. O nico pntano que tem por aqui  esse pntano de sangue. Do sangue dos jacars...
O ndio sorriu, mostrando dentes perfeitos.
 De Pantanal Robson entende. Robson  o melhor guia do Pantanal! Por isso Robson cobrou caro do tal turista. Ah, se cobrou!
Entusiasmado por ter algum a ouvi-lo, Robson no calava a boca. Aos poucos, Crnio foi se desligando daquela tagarelice, s tendo olhos e ateno para o objetivo que o trouxera ao Pantanal. Algum lhe roubara os slides, mas Crnio no precisava deles. Cada foto daquela seqncia estava registrada em sua memria prodigiosa. Se aquele fosse mesmo o roteiro do professor, ele o reconheceria na hora. At aquele momento, porm, nada lhe parecia familiar.
Mas tudo parecia sem limites, como quando se sonha acordado.
Robson identificava cada rudo para o visitante. Aquele pio agourento era da inhuma, e aquele bando estridente que passava voando eram araras vermelhas. Nas baas, periquitos, maritacas e tuins disputavam coquinhos nas palmeiras de pequi.
De repente, um som fortssimo e assustador sobreps-se aos demais.
  o macho guariba. O macaco est marcando o seu territrio, moo novo. Outro macho que quiser entrar l vai ter de brigar! Dizem que  o som animal mais forte do mundo. Robson no conhece o mundo todo, mas esse  o barulho mais forte do mundo pantaneiro. E o Pantanal Robson conhece. Por isso cobra caro.
O sol j estava alto quando a chalana entrou num corixo mais largo.
O maior habitante daquelas guas reinava absoluto por todos os lados, nas guas, nas baas e nas praias, como um imperador preguioso.
O jacar!
 Veja, moo novo. A maior riqueza do Pantanal. O "colete" dele vale muito. Mas no valia nada quando o pai do av de Robson pescava livre nesses rios. O que valia era o jacar. No valia dinheiro, mas valia muito. O pai do av de Robson contava que isso aqui estava cheio de jacars.
 E o que eu estou vendo  pouco?
 Tinha muito mais, moo novo. Muito mais! Isso no  nada perto do que tinha antes. Mas o preo do colete do jacar est acabando com ele. Por isso tem tanta piranha...
Crnio olhou assustado para as guas.
 Aqui no tem piranha, moo novo. Fique sossegado.
Na margem, uma capivara bebia  vontade, quase ao lado de um jacar-au, que nem parecia ligar para a presena de um almoo to fcil.
 O jacar no ataca assim, sem mais nem menos. D at para chegar perto...
Um pssaro enorme, de papo vermelho, ps-se a correr desengonado, como se no conseguisse voar. Batia as asas, abertas numa envergadura de mais de dois metros, fazendo o barulho de um trapalho. Por fim alou um vo elegante, Poderoso, dominando os ares como um rei que sabe de sua importncia.
Era o tuiui, ou jaburu, a ave-rei do Pantanal. O smbolo daquele zoolgico de sonhos.
Robson manobrou, fazendo a chalana costear a margem, quase roando um jacar.  frente, um capo de rvores parecia ser o destino daquela manobra. Os sons eram algo que Crnio nem podia imaginar. Tinham chegado  praia Vermelha. Aquilo era um ninhal.
O corao do rapaz disparou. Imediatamente reconheceu o capo de rvores. Estavam na pista certa. O professor Elias estivera ali!
 O pai do av de Robson contava que antes no tinha disso por aqui. Ningum sabe dizer por que de uma hora para outra os pssaros resolveram viver juntos, nesses ninhais. Robson acha que isso s comeou depois que os homens brancos apareceram. Vai ver os pssaros tm medo dos homens brancos. Nunca fizeram isso enquanto s havia homens ndios.
Era um espetculo de cobrar ingresso dobrado. Centenas de pssaros de todos os tipos, marrequinhas, bigus, curicis, socos, garas, emas, baguaris, cabeas-secas e at colhereiros coabitavam o capo de rvores, formando uma comunidade interprotetora, superpovoada, barulhenta. Ninhos de todos os tamanhos espalhavam-se pelos galhos, e filhotes famintos faziam uma gritaria infernal. Em volta e embaixo, gavies, jacars e sucuris aguardavam pacientemente por um descuido que lhes valesse o almoo. Mas nenhum se aproximava, temeroso das conseqncias de um ataque das aves enfurecidas.
 No faa barulho, moo novo. Se os pssaros se assustarem, podem fugir to depressa que acabaro derrubando os filhotes dos ninhos. E a vai ser a festa dos jacars e das sucuris...
A chalana seguiu silenciosamente, passando por baixo do ninhal. Crnio imaginou que em nenhum lugar do mundo encontraria uma concentrao de vida colorida e barulhenta como aquela. Teria sido o medo do homem branco destruidor que reunira tanta beleza?

7 cemitrio para milhares
 
 medida que os sons do ninhal eram deixados para trs, um fedor nauseante tomava conta do ar.
 Ah! Vamos voltar daqui!
 Que fedor  este, Robson? Como este paraso pode feder assim?
 O paraso s tem perfume, moo novo. Isto  o fedor dos infernos!
Estavam se aproximando de um cemitrio de jacars. De uma obra dos coureiros. De uma obra do homem branco.
Crnio reconheceu trs grandes rvores de jenipapo, formando um tringulo, ladeadas por palmeiras baixas. Era mais uma das fotos. E estava na seqncia. Sua teoria maluca comeava a confirmar-se!
 Vamos continuar, Robson. Quero ver isto.
O ndio de culos escuros acariciou a gua com o remo de um lado s e a chalana embicou para a terra.
 Pode descer. Garanto que aqui no tem piranha. Crnio pulou na gua, que mal chegava a seus joelhos.
 Cuidado com aquele banco de areia, moo novo. Pode ter arraia. O espinho dela tem um veneno que faz doer at amanh.
No foi preciso avanar mais que alguns metros terra adentro para Crnio assistir ao espetculo mais nojento de sua vida. Ossos branqueavam-se ao sol, misturados s carnes putrefeitas de milhares de jacars. O cheiro era insuportvel, mas a viso daquela barbaridade era pior. Cada uma das cabeas daqueles animais, que j habitavam a terra milhes de anos antes de o homem aparecer, tinha dois buracos. Um da bala que o abatera, e outro do pino de aroeira que lhe fora cravado a martelo para completar o servio. Em volta da chacina, um sem-nmero de urubus abatidos a tiros completava o absurdo.
 Os coureiros matam os urubus que so atrados pela carne podre  explicou o ndio.  A revoada deles iria mostrar para todo mundo o lugar onde os contrabandistas renem os jacars mortos para tirar-lhes o colete e salg-los...
Aquele matadouro devia estar ali h muito tempo. O rapaz lembrava-se de uma foto dali feita pelo professor, embora na ocasio Crnio no tivesse entendido o que poderia ser aquela mancha branca brilhando ao sol, no meio do mato. Estava na pista certa. E na seqncia certa dos slides.
 Ei! Veja isto. Que coisa mais sem jeito!  Robson apontava para uma pilha de couros de jacar ao lado de sacos de sal.  Parece que esses coureiros tiveram de sair correndo. At deixaram tudo isso para trs...
Um pouco adiante, meio oculta por folhas de palmeira, havia uma canoa comprida, uma chalana semelhante quela em que viajavam. Estava furada e meio submersa.
 E fugiram a p. Ou a nado  observou Crnio.  A chalana deles ainda est aqui.
O rudo de um motor aproximava-se. Mesmo com a viso ofuscada pelo sol, Crnio pde ver um Cessna voando baixo, preparando-se para pousar. O avio sumiu atrs das copas das rvores, a cerca de um quilmetro dali.
 Meu Deus! O que  isso?
Crnio piscou, no acreditando no que descobrira ao erguer a cabea para olhar o avio.
Pendurados no alto das rvores, doze corpos balanavam-se ao vento!
A viso de mais aquele horror doeu como um soco no peito, e Crnio recuou, apavorado, at tropear com os calcanhares e cair sobre aquele monte de ossos fedorentos.
Levantou-se, limpando-se, enojado, e olhou em volta.
 Robson! ndio Robson! Onde est voc? Nenhuma resposta.
Em pnico, correu em volta das carcaas, atabalhoadamente.
Tudo intil. O guia desaparecera, como se uma fada maligna estivesse atuando no Pantanal!
Quase sem pensar, procurando um refgio como uma criana procuraria o colo da me, Crnio correu para a chalana.
 O que  isto?
Algum havia furado a chalana e o barco afundava lentamente!
O corao de Crnio batia descompassadamente. Doze homens haviam sido assassinados ali e pendurados nas rvores, como acontecera com o coureiro l perto da fazenda do Senador. Como se tudo estivesse fotografado em sua mente, o rapaz lembrou-se de ter visto bocas negras, escancaradas, em cada um daqueles cadveres. Suas bocas deveriam estar atochadas de terra com formigas carnvoras...
Os Formigas-paradas!
E agora? Como poderia Robson ter desaparecido assim, como se o Pantanal o tragasse?
No podia agir sob pnico nem com raiva toldando-lhe os sentidos. Contou pausadamente at seu corao voltar ao ritmo normal. Lembrou-se da seqncia das fotos do professor. Elas vinham sendo feitas a bordo de um barco at o cemitrio de jacars. Depois passaram a ser feitas em terra, no meio de rvores. O local dos trs slides desaparecidos estava prximo!
Pensou tambm no avio que acabara de ver. Certamente haveria uma fazenda por ali. Haveria gente. Um lugar onde ele poderia buscar abrigo e auxlio.
Olhou cuidadosamente  volta. Nada  vista. S a beleza do Pantanal, com aquela ndoa branca das ossadas. Correu, procurando o refgio da mata. Meteu-se por entre as rvores, tentando orientar-se na direo onde vira o Cessna. Aos poucos, o fedor do cemitrio dos jacars foi diminuindo e substitudo por um perfume forte de jenipapos maduros.
O canto selvagem dos pssaros, quase ausente no local da chacina de homens e jacars, voltou ao normal. Em meio quela algaravia, Crnio ouviu o som distante de um motor, certamente do Cessna, que se mantinha ligado. ! Parece que ele estava no caminho certo.
O aeroporto no estaria to longe como ele estava calculando. Em um quarto de hora, avistou um descampado. Aproximou-se com cautela. O Cessna girava seus motores na extremidade de uma pista de terra. No havia nenhuma casa. Apenas um grupo de barracas de lona.
Um grupo de homens descarregava caixas e recarregava o avio com pilhas de peles de jacar amarradas.
Contrabandistas! Coureiros! Onde viera ele buscar refgio?
Um homem moreno e magro desembarcara. Parecia ser o chefe e, mesmo quela distncia, dava para Crnio entender uma fala autoritria, rstica, espanholada.
 El Ente... quiere saber porque Ia demora... Est muy nerbioso... El Ente no perdona...
E Crnio compreendeu tudo. As trs fotos roubadas eram daquele aeroporto clandestino! O professor Elias o descobrira. E por isso fora assassinado! Ele precisava fugir. Recuou silenciosamente e enfiou-se entre as rvores. s suas costas, o motor do Cessna foi desligado.
Crnio sentiu-se confuso. Sem o rudo do avio para orient-lo, todas as rvores pareciam iguais, todos os caminhos pareciam o mesmo. Andou sem rumo, procurando apenas livrar distncia do perigo. O medo ocupou-lhe todos os sentidos e o rapaz correu, chocando-se nos galhos baixos, arranhando-se, desorientando-se cada vez mais.
Tropeou numa raiz saliente e caiu, de cara na terra.
 Inferno!
Tinha corrido como um idiota, fazendo um crculo! Um rudo leve, atrs de si. Crnio saltou, como se uma pintada lhe tivesse bafejado a nuca.
Era pior do que uma pintada. O cano de uma Browning de quinze tiros estava apontado para ele. Atrs do cano, um rosto muito magro, moreno, mostrava um sorriso desdentado com hlito imundo.
 Buenas tardes, muchacho...

* * *
Rapazes da idade de Crnio j eram adultos no Pantanal. Por isso Crnio foi tratado como um adulto. Como um adulto inimigo. Como um inimigo perigoso, que deve ser amarrado aos trancos e conduzido a pontaps.
 J est bem amarradinho, Centurio  declarou um dos bandidos que cercavam Crnio.
O lder, sorridente, bafejou de novo aquele hlito dos infernos.
 Muchacho... Que quieres ac? Como te llamas? Crnio manteve a cabea altivamente levantada e olhou para o Centurio como num desafio. No disse uma palavra, porm.
 No hablas? Quieres morir calado?
 Ele no  daqui, Centurio.  um garoto muito bem tratado para ser daqui.
 Quien eres, muchacho? A mi no me gusta matar alguno sin saber su nombre...
 Pode deixar, Centurio  ofereceu-se um sujeito pequeno como um menino, com uma faca que brilhava ao sol.  Eu fao o servio.
 No... El muchacho es muy arrumadito. Puede ter qualquiera de importncia por detrs. Devemos preguntar ai Ente. El Ente sabr o que hacer. Levem ei muchacho para la casita!

***
O rosto e as mos de Crnio sangravam, depois de ter sido arrastado com brutalidade por entre galhos e espinhos de volta ao aeroporto dos contrabandistas.
Do Cessna, os bandidos descarregavam pesadas caixas com inscries em ingls. Crnio pensou que eram videocassetes, whisky e outros artigos de contrabando, at que um dos bandidos tropeou, deixando cair uma caixa. A caixa se abriu, esparramando um grande nmero de saquinhos plsticos cheios de p branco.
Cocana!
Crnio no baixou a cabea, esperando o pior destino nas mos daqueles criminosos. Viesse o que viesse. Ele um Kara!
Sem uma palavra, Crnio foi arrastado para "la casita. Era uma choupana coberta com folhas de palmeira secas e gradeada com bambus em toda a volta. Apesar do material simples, era uma construo slida, uma priso perfeita.
O jovem prisioneiro foi desamarrado e jogado dentro da casita. A entrada foi tapada com uma prancha de bambus grossos e tranados, e acorrentada, para completar a segurana. O teto era baixo demais, impedindo que o prisioneiro ficasse de p.
 Acorda, piloto!  gozou o bandido que acorrentara a entrada.  Um companheiro para voc!
O homem estirado no fundo da casita no demonstrou sinal de vida. O contrabandista foi embora, rindo, e Crnio rastejou at o prisioneiro. Devia ter uns trinta anos e seus braos estavam cobertos de picadas de injeo.
Um viciado em herona!
O prisioneiro no abriu os olhos, mas Crnio percebeu um leve movimento em seus lbios. Aproximou-se e encostou o ouvido em sua boca.
 Meu nome  Bezerra... ainda estou vivo... ainda estou vivo...

* * *
A noite caiu sem que algum trouxesse comida ou gua para os prisioneiros. Crnio no comia desde o "quebra-torto" daquela manh e a sede era torturante sob aquele calor infernal.
Os sons do Pantanal eram muito diferentes,  noite.
No havia ningum para identific-los para o garoto, e todos lhe pareceram assustadores. Talvez aquele pio que lhe gelava a espinha fosse de uma coruja, ou talvez aquele som rouco fosse o esturro de uma ona, ou talvez... E se uma cobra se esgueirasse por entre os bambus durante a noite?
Sentado ou deitado sobre a terra quente, Crnio no sabia o que esperar. Tirou a gaita do bolso da jaqueta e soprou-a baixinho, tentando afastar o medo. Suas mos estavam esfoladas e arranhadas. Comeavam a latejar. A infeco comeava a instalar-se.
Aos poucos, a fome, a sede, a escurido e a companhia pattica daquele pobre homem adormecido foram amolecendo seu nimo, e o sono chegou, em meio  saudade de casa e de seus queridos companheiros.
 Tia Matilde... acho que nunca vou conhecer voc... Miguel... Calu... Chumbinho... Magri... meu amor... onde esto vocs, Karas? Por que me deixaram sozinho?

8  Veneno nas veias
 
A madrugada tinha esfriado a terra sob seu corpo, e o frio foi sua primeira sensao, quando um murmrio o acordou.
 Eu me chamo Bezerra. Sou um piloto. Quem  voc?
O prisioneiro parecia ansioso.
 Algum sabe que eu estou aqui? Voc faz parte de algum grupo de resgate?
 Me chamam de Crnio...
O piloto enterrou o rosto nas mos quando ouviu que as respostas de Crnio no traziam nenhuma esperana.
 Calma, amigo. Pelo menos agora voc no est sozinho. Daremos um jeito de fugir daqui.
 Fugir? Impossvel. Voc vai ver quando comearem o "tratamento" com voc...
 Tratamento? Que tratamento?
 Veja!  Bezerra estendeu os braos, como se Crnio pudesse ver alguma coisa naquela escurido.   isso o que vo fazer com voc. Vo lhe injetar cocana e herona  fora, at voc esquecer seu prprio nome e desejar a morte, como se deseja uma mulher! Veja! Eu, que nem bebo, estou todo furado pela maior porcaria do mundo. Esse veneno j est em meu crebro e meu sangue j no pode circular sem ele. Eles conseguiram que eu desejasse a droga. Eles me viciaram, Crnio!
O rapaz abraou o pobre companheiro, como se consola uma criana que caiu e esfolou o joelho.
  claro que eles j poderiam ter me matado h muitos dias. Mas o assassinato puro e simples de um piloto conhecido atrairia atenes indesejveis. J descobri o que pretendem fazer, esses malditos. Quando eles me considerarem "no ponto", vo me devolver ao quarto do hotelzinho onde eu estava hospedado e me aplicar uma superdose, uma dose assassina. Quando meu corpo for encontrado, todo mundo vai pensar que me viciei em txicos e morri devido  superdose que teria aplicado em mim mesmo...
O efeito da ltima aplicao da droga tinha diminudo e Bezerra podia falar quase claramente.
 Maldita a hora que decidi vir de So Paulo para c! Achei que valia a pena ganhar o triplo para pilotar avies carregados de peles de jacar na ida e de caixas de contrabando na volta. Mas acabei descobrindo que o buraco em que me meti era muito mais fundo. Era o buraco dos txicos, dos mais tremendos crimes, Crnio. Acabei descobrindo que aqui h muito mais que ameaas  ecologia e extermnio de jacars. Aqui, a humanidade inteira est ameaada... Tentei sair, Crnio, tentei sair, mas ningum sai deste buraco depois de ter se afundado nele como eu me afundei... Agora eu sei demais e eles no podem me deixar escapar vivo com tudo o que sei... Perderam a confiana em mim, e a minha vida j no vale mais nada. Ningum escapa do crime organizado internacional... Crnio espantou-se.
 O crime organizado?! Agindo aqui? No Pantanal?
 O Pantanal sempre foi o paraso dos fora-da-lei. Um lugar onde se est destruindo o verdadeiro paraso, arrasando-se a natureza impunemente em troca do enriquecimento rpido. Uma rota perfeita para a passagem do contrabando e dos txicos. O Pantanal foi escolhido como a sede ideal do crime organizado.  uma operao gigante, Crnio. Esto transportando para c uma grande quantidade de ouro, para proteger a fortuna incalculvel conseguida pelas mais diversas e brbaras atividades criminosas. O lder dessa operao  o Ente que...
 Ouvi o Centurio falar desse tal Ente. Quem  ele?
 No sei.  o segredo mais bem guardado do Pantanal. O Ente centraliza todo o poder.  uma espcie de tesoureiro do crime internacional. O guardio de toneladas de ouro que devem estar escondidas aqui, em alguma parte. Por isso bandidinhos sem importncia como eu era no podem saber quem  o Ente. Ns sempre recebamos as ordens por mensagens de rdio, sem nunca falar diretamente com o grande lder. S os chefes de grupo, como o Centurio, devem saber quem  o Ente,
 Mas o que a polcia...
 Nem adianta esperar a ao da polcia. Aqui, de vez em quando, so presos alguns contrabandistas. Mas de que adianta isso, se os grandes receptadores de peles continuam impunes, em suas manses da Bolvia, do Brasil ou do Paraguai? E o que esperar agora quando quem est agindo  o crime organizado internacional?
 Eu no vim para c por causa do crime internacional, Bezerra. Vim atrs de um crime nico. O professor Elias...
 Professor Elias? Ele foi assassinado, no foi?
 Como voc sabe? Voc conhecia o meu professor?
 Eu o conheci rapidamente, em Aquidauana, quando ele me mostrou uma srie de fotos que tinha feito aqui, no Pantanal.
 Mas como soube que ele foi assassinado?
 Aqui os bandidos falam tudo sem ligar se eu estou ouvindo ou no. No lhes importa o que eu saiba. Eu vou morrer mesmo, no vou? Parece que o professor Elias descobriu alguma coisa muito comprometedora. Algum segredo muito importante. O Centurio desapareceu daqui por uns dias. Quando voltou, ouvi que tinha estado em So Paulo e que o "servio" estava feito... que o tal professor Elias no tinha mais nada pra mostrar a ningum... e que nunca mais fotografaria qualquer coisa...
Crnio escondeu a cabea entre os joelhos. O Centurio fora mandado a So Paulo especialmente para torturar e matar seu querido professor! Pobre Elias! Nem suspeitava da importncia de suas fotos, mas o Centurio torturou-o do mesmo modo, s para ter certeza. Maldito Centurio! Maldito Ente! Malditos!
Crnio tinha descoberto o que tinha vindo descobrir. Mas de que lhe adiantava isso agora? Estava engaiolado como um animal,  espera da morte...
 O professor Elias no desconfiava de nada, Bezerra. No tinha conscincia de ter descoberto nada. Tudo o que ele pretendia era vender os slides que fez no Pantanal para algum jornal ou revista.
 E acabou mostrando os slides para algum informante do crime organizado. Malditos! Esses criminosos esto por toda parte!
Crnio suspirou.
 O que o Elias descobriu de importante estava em trs daqueles slides.
 Tem certeza? Voc viu os slides?
 No. Quem matou Elias sumiu com eles. Mas tenho certeza que eles foram fotografados aqui, neste aeroporto clandestino. Devia estar acontecendo alguma coisa muito importante por aqui para que o Centurio se desse o trabalho de ir at So Paulo atrs das fotos, assassinando o Elias.
Era preciso pensar. Era preciso agir. Era preciso ousar. Era preciso ser um Kara, naquele momento.
 Bezerra, voc examinou todos os slides. Voc viu as fotos roubadas. Voc sabe o que havia nelas!
 Eu examinei as fotos, mas...
 Uma por uma?
 Sim. Mas como vou me lembrar delas?
 Tente, Bezerra.
  impossvel...
Crnio aproximou-se mais do piloto. Recordava-se do sucesso que tivera no Colgio Elite ao hipnotizar a servente e faz-la lembrar-se da mensagem que Chumbinho deixara para guiar os Karas na pista da Droga da Obedincia.
 Eu posso fazer voc se lembrar, Bezerra. Eu conheo hipnose. Posso penetrar no seu subconsciente e faz-lo recordar as fotos. Voc concorda em submeter-se  hipnose?
 Agora? Por que no?
Crnio fez Bezerra recostar-se nas grades de bambu.
 Feche os olhos e no tema nada. Voc est relaxado e se sente bem. Quando eu contar at cinco...
Crnio caprichou o mais que pde. Do sucesso daquela sesso de hipnose dependia mais do que a descoberta de uma pista. Dependia a prpria vida dos dois!
 Agora voc est de volta a Aquidauana, Bezerra. Procure lembrar-se. O professor Elias est mostrando os slides para voc. Diga o que est vendo.
 Porcos selvagens...
 Agora olhe o prximo.
 rvores floridas... vermelhas... jacars.
 timo! Passe para outro.
 Um veado... bebendo... beira da gua.
 O prximo, Bezerra.
Crnio deixou que o piloto descrevesse os slides um a um, como se os estivesse examinando naquele momento. A seqncia era aquela, e Crnio foi se entusiasmando  medida que se aproximava o ponto dos trs slides fatdicos.
 Cemitrio de jacars... carcaas ao sol...
 Continue.
 Entre as rvores... descampado... mancha brilhando  distncia...
 Que mancha  essa, Bezerra?
 Brilhante... sol refletindo... sol amarelo... sol vermelho... entre as rvores... no d para ver...
 Passe para o prximo.
 Descampado... avio brilhando ao sol... sol amarelo...
A terceira foto era igual. O professor Elias tinha fotografado apenas o avio dos contrabandistas, sob as cores do sol, no aeroporto clandestino. E isso bastou para que o matassem!
 Canalhas!  praguejou Crnio para si mesmo.  Temos de fugir daqui. Essa gente tem de ser punida pelo que fez!
Os acontecimentos daquele dia terrvel revolviam sua mente, embrulhavam seu estmago vazio, faziam-no esquecer a prpria sede. O Ente! Dono da vida e da morte. Os coureiros, pendurados no alto das rvores, com as bocas cheias de formigas carnvoras, provavelmente mortos pelos homens do Centurio. O crime organizado no admitia criminosos autnomos no Pantanal. Os Formigas-paradas!
Repentinamente, o quadro iluminou-se em seu crebro:
 Os homens do Centurio so os Formigas-paradas! Os assassinos misteriosos do Pantanal! No tem nada de folclore nem de crendice popular nisso tudo.  isso! Descobri! Os Formigas-paradas! O Ente! Ente tem a mesma pronncia que ant, que quer dizer "formiga", em ingls. O Ente  o lder dos Formigas-paradas! Os Formigas-paradas so os criminosos que protegem o ouro da Mfia! Toneladas de ouro! Escondidas aqui por perto!
Separados por centenas de quilmetros, dois Karas tinham chegado  mesma concluso.
Agora, mais que nunca, era preciso fugir dali e denunciar aqueles assassinos. Voltou-se para o piloto hipnotizado:
 Bezerra, voc agora se sente bem, est relaxado, e ouve apenas a minha voz. Apenas a minha voz... Quando os bandidos vierem e aplicarem a injeo de herona, voc se fingir de morto. Fingir to bem que ningum vai desconfiar. Voc s acordar com gua. Lembre-se. Somente com gua. Entendeu?
 Sim...
Sorriu, satisfeito com sua idia. Sempre lavam os cadveres antes de enterr-los. O empregado da funerria teria uma bela surpresa!
 Agora voc acordar e no se lembrar de nada. Voc vai se sentir muito bem, confiante. Quando eu contar at trs, voc acordar. Um... dois... trs. Acorde, Bezerra!
O piloto abriu os olhos. Olhou para Crnio e sorriu.
 Como ? Deu certo?
 Deu. Os slides eram mesmo do aeroporto clandestino. O professor Elias fotografou um avio, sob o sol.
 O que foi que eu descrevi?
 Voc falou: "mancha brilhando ao sol... sol refletindo,.. avio brilhando... sol amarelo... sol vermelho... " Esses bandidos mataram o professor Elias s porque ele descobriu onde as muambas so embarcadas e desembarcadas...
 Canalhas...
 Preste ateno, Bezerra. No posso lhe explicar agora, mas voc vai fugir daqui.
 Eu?! Como?
 No importa. Preste bastante ateno: o crime organizado est agindo no Pantanal acobertado pela superstio popular que fala em espritos assassinos, os Formigas-paradas. Mas os Formigas-paradas no so fantasmas. So os criminosos comandados pelo Ente. O grupo do Centurio faz parte deles. Eu mesmo vi do que eles so capazes. H doze corpos pendurados l no cemitrio de jacars!
 Meu Deus!
 O ouro deve estar escondido por aqui, por esta regio. Provavelmente eles esto assassinando os coureiros, e quem mais aparecer por aqui, para reforar a superstio e manter todo mundo bem longe do esconderijo principal. Entendeu direito? No se esquea de nada. As autoridades precisam ser avisadas.
 Est bem. S no entendo como eu vou fugir daqui...
9 Bancando o Montecristo
 
As primeiras luzes da aurora trouxeram o Centurio e dois do seu bando. O desdentado vinha sorrindo e ajoelhou-se, emitindo um bafo fedorento para dentro da casita.
 Crnio... Entonces te llaman Crnio, no es? Bueno, muchacho, no deverias ter aparecido por ac. Eres un gran problema, un grandssimo problema, muchacho. El Ente te quiere vivo. Vivo e entero. Tienes suerte. Mucha suerte, muchacho...
Um dos bandidos enfiou duas tigelas dentro da jaula. gua e comida. Um outro trazia uma seringa.
 Vamos, piloto. Es Ia hora dei breakfast... Nada como una espetadita a esta hora de la maana, no?
Bezerra recuou para o canto mais distante da jaula.
 No! No quero!
 Oh, oh! Es claro que lo quieres, piloto. Ests acostumbrado ya. No puedes pasar sin tu espetadita, verdad?
 No!
O homem que tinha trazido a comida deu a volta na jaula e cutucou as costas de Bezerra com uma faca. O piloto saltou para diante e, como o espao fosse muito restrito, foi chocar-se com a frente da jaula, onde o outro bandido segurou-lhe o brao, puxando-o para fora das grades de bambu. Fez um torniquete com um tubo de borracha apropriado e, em um segundo, a veia de Bezerra estava espetada e o lquido maldito comeou a circular por seu corpo. O comando ps-hipntico fez efeito. Bezerra revirou os olhos, como um agonizante, e sua cabea tombou de lado. O corpo amoleceu e o bandido teve de retirar apressadamente a agulha de seu brao.
 O que houve?
O Centurio tomou o pulso inerte do piloto. Era um ignorante, especialista apenas em assassinatos, e no conseguiu encontrar a batida fraca do pulso de Bezerra.
 Est muerto. La dose era muy fuerte mismo para ei, que ya se acostumbrara. Bueno! Podemos livrar-nos de este. Levem-no para o hotelzito donde lo encontraron. Pongan la droga y unas seringas a su lado, como planeamos.
 Mas como vamos andar com um cadver assim, sem mais nem menos, pela cidade, Centurio?
 Pongan ei hombre num saco, estpido! Faam creer que estn carregando qualquier entrega para ei hotel. El dono es nuestro cumpadre, no se precupen.
Crnio fez cara de revolta e protestou contra aquela "morte".
 Assassinos!
 Ah, ah! No reclames, muchacho. Tienes mucha suerte. El Ente no quiere que te toquem.
 O que vo fazer comigo?
 No s. El Ente es quien Io sabe. Coma e agradea. No fueran las ordenes dei Ente, ya estaria con mi cuchillo en tus tripas. Nadie me llama asesino e sigue respirando...
 Pero eres lo que eres, Centurio! Un asesino covarde!
 Oh! Hablas castellano! Que culto que eres!
Foi embora com os companheiros. Crnio bebeu toda a gua, mas foi impossvel provar aquela gororoba to nojenta. Parecia conter carne podre de jacar. Sentia-se enjoado. As feridas latejavam e ele comeou a sentir frio, batendo os dentes.
Dois bandidos voltaram e entraram na casita. Meio espremidos, enfiaram Bezerra dentro do saco e fecharam o pacote com uma corda. Foram embora. No voltariam antes de comer o quebra-torto.
Pronto. O plano do gnio dos Karas estava dando certo. Bezerra sairia livre dali, e a polcia acabaria por salvar a ele, Crnio. Seria o fim dos Formigas-paradas. O fim do tal Ente. Ele deduzira tudo direitinho. Formigas-paradas. Ente.  assim que se pronuncia "formiga", em ingls. Ant! Era isso!
Mas parecia muito pouco. O ouro deveria estar por perto, mas onde? O Ente era o formigo maior, mas e da? Quem era o Ente? Sob que disfarce se escondia?
Crnio era prisioneiro de algum sem nome e sem rosto. O rapaz revolvia o crebro privilegiado, mas as perguntas mais importantes no tinham resposta.
 Engraado... Por que o Ente ordenou que no fizessem nada comigo? Ser que ele me conhece? Ser que o formigo...
De repente, o sangue fugiu-lhe das faces.
 Que estpido sou eu!! Como no descobri isso antes?
Pulou sobre o piloto, esquecendo-se do comando ps-hipntico.
 Bezerra! Acorde! Preciso contar a voc quem  o Ente! Eu descobri tudo! Acorde!
O piloto no se moveu.
 gua. Preciso de gua!
A febre aumentava-lhe a ansiedade. Procurou a tigela, mas a sede tinha feito com que ele no deixasse nem uma gota!
 Preciso pensar... pensar! J sei! Eu e o piloto somos mais ou menos do mesmo tamanho.  arriscado, mas pode dar certo. Pelo menos deu certo com o Conde de Montecristo!
Abriu o saco e tirou-o de Bezerra. Despiu a prpria jaqueta e vestiu-a no piloto. Rolou o corpo inerte para o canto mais tapado por bambus e deitou-o de bruos, encolhido, como se estivesse dormindo. Enfiou-se no saco e com dificuldade encaixou, pelo lado de dentro, a argola de corda meio mal-e-mal, fechando-se no saco. Pronto. Agora bastava esperar que aquilo no se transformasse em sua prpria mortalha. No demorou a ouvir os passos dos bandidos, que voltavam depois do quebra-torto.
 Vamos l. Pegue deste lado.  pesadinho, o desgraado!
 Veja como dorme este aqui. Com um cadver do lado e o moleque ainda consegue dormir!
Crnio foi carregado para fora. Sentiu quando o colocaram no fundo de um barco, que se balanava suavemente sobre as guas. Ouviu o rudo do motor sendo ligado. O barco comeou a vibrar.
 Ei, voc amarrou muito mal este saco!
 Pois amarre melhor, ora!

***
A "voadeira" avanava velozmente, na certa por um afluente d Taquari, em direo  vila de So Francisco. Crnio sentia-se sufocar dentro do saco, mas no movia um msculo, embora tivesse sido colocado de mau jeito pelos bandidos.
O som da conversa dos dois bandidos chegava abafado aos ouvidos do rapazinho, at que um alerta desesperado invadiu-lhe claramente os ouvidos.
 Cuidado! Uma rvore cada!
  uma cilada! Aaaai!
 Hein? O que foi? Aaaaah!
Algo inevitvel acontecia fora do saco que aprisionava Crnio. Algo inevitvel como a morte.
O barco sacudiu-se violentamente e Crnio foi jogado de um lado para o outro. Um corpo pesado caiu sobre ele, e o barco virou. Sentiu o baque na gua.
Crnio lutou desesperadamente para sair. Intil. O bandido tinha amarrado fortemente a boca do saco! A gua comeou a entrar, ocupando todos os espaos. Enquanto o saco afundava rapidamente, Crnio sentiu o frescor das guas limpas do Pantanal.
10 O sangue banha o Taquari
 

O Centurio afastou-se furioso da casita.
 Aquellos asinos! Llevaran ei hombre errado!
 E agora, Centurio?
 No s. Como ellos no perceberan que ei muchacho no estava muerto? Como ensacaran ei muchacho en lugar dei otro? Ac hay algo que no entiendo...
 E agora, Centurio?  repetiu o bandido, que no conseguia dizer outra coisa.
 Ahora ei Ente acabar con nosotros se algo acontecer con ei muchacho. Se aquellos dos asinos no volveren con ei tal Crnio, no s... no s....
 E o que faremos com este cadver?
 Vamos a seguir ei pln. Usted y usted!  ordenou o Centurio para o baixinho com a faca e para o palerma perguntador.  Carreguem con ei cadver dei piloto para el hotelzito. No se olviden de Ia droga. Tenemos cumpadres dentro de Ia policia, pero ellos precisam de Ia coca como prova, para que faam una investigacin como nosotros queremos que faam!
 Mas os outros levaram a voadeira. Como vamos at a vila sem um barco a motor?
 A los remos, preguiosos! A los remos!

***
O palerma remava com afinco, mas o baixinho parecia muito disposto.
 Voc no vai remar direito, baixinho?
 Sou muito melhor com uma faca do que com um remo nas mos...
O palerma engoliu em seco, e acabou remando dos dois lados, para que a chalana no andasse em crculos. Era melhor no reclamar da preguia do baixinho.
 Assim no vamos chegar nunca a So Francisco...
  que os outros levaram a voadeira e...
 Eu sei que os outros idiotas levaram a voadeira com o cadver errado, idiota! E ns  que temos de nos acabar aqui, pendurados nestes remos!
O palerma ficou calado. Mas sua vontade era perguntar quem estava mesmo se acabando em cima dos remos...
 E tudo isso pra qu? Para levar um morto idiota at sua caminha...
 So as ordens do Centurio...
 O Centurio! O Centurio! Estou cheio de ser mandado por aquele desdentado! Um dia ainda vou mostrar a ele o fio da minha faca...
Ficaram um momento em silncio. O baixinho olhou para o corpo inerte de Bezerra, jogado no fundo da canoa.
 Sabe o que mais? Acho que a gente devia era deixar as piranhas fazerem o servio pra gente...
 Como assim? Piranha sabe remar?
 Mas voc  mesmo cretino! Estou falando de jogar este cadver na gua e dar um pouco de comida fresca para as pobres piranhas. Elas devem estar famintas a esta hora do dia!
 No podemos fazer isso. O Centurio disse que...
 Para o inferno com o Centurio. Vamos at a margem conversar melhor.
O palerma deu duas remadas de um lado s e deixou que a correnteza levasse a chalana at embic-la de proa na margem.
 Vamos descer  convidou o baixinho.  Eu trouxe uma garrafa com uma pinga das boas. Assim a gente descansa um pouco.
Os dois desembarcaram e amarraram a chalana em um toco. O baixinho desarrolhou a garrafa e bebeu no gargalo, fartamente. Passou a garrafa para o companheiro e voltou para o barco. Agarrou o corpo de Bezerra pelas roupas e jogou-o no rio.
O palerma tentou uma reao, plido diante daquele ato de insubordinao que jamais lhe passaria pela cabea. Mas deparou com a carranca do baixinho, que j tinha desembainhado a faca.
 Beba. Beba e descanse, idiota. Deixe que eu pense nas coisas. Se o Centurio quer que esse cadver chegue  vila, que venha recolher os ossos que as piranhas tiverem enjeitado...
O palerma percebeu o brilho de prata da faca ao sol e entornou o mais que podia a garrafa, sem saber o que pensar. O baixinho veio at ele e os dois se sentaram, para beber, abrigados na sombra.
Nenhum dos dois se preocupou mais com o "cadver" de Bezerra. Nenhum deles percebeu que, ao cair na gua, o morto voltara  vida.
Bezerra foi levado alguns metros pela correnteza, at enredar-se em um galho da margem, antes mesmo que a surpresa o levasse a debater-se. Agarrou-se no galho, sacudiu a cabea e procurou pensar. Lembrava-se da casita, de Crnio e da figura macabra do Centurio, ao lado do bandido que lhe espetava as veias. Agora estava dentro de uni rio. Custou a entender que estava livre.
Livre! Era isso que Crnio tinha prometido. Que ele escaparia. E tinha cumprido a promessa. Sorriu ao perceber que estava vestido com a jaqueta do amigo. S no pde entender por qu.
A menos de trinta metros, o piloto viu os dois bandidos, recostados nas rvores, bebendo e conversando preguiosamente. Viu tambm a chalana, mal amarrada na margem. Nadou silenciosamente, lutando contra a tonteira que ainda restava da ltima aplicao de herona. Meteu-se entre a margem e o barco e esticou o brao, dando um leve puxo na corda. A chalana soltou-se e comeou a ser levada lentamente pela correnteza. Bezerra agarrou-se na borda e deixou-se levar tambm.
 Ei! O que est havendo?
O baixinho correu para a margem. L ia a chalana, distanciando-se deles, e tendo o "cadver" agarrado  borda!
 Pela Santa Virgem do Pantanal!  persignou-se o palerma.  O morto ressuscitou!
 Pois no vai ficar ressuscitado por muito tempo!  decidiu o baixinho, sacando sua pistola.
O primeiro tiro furou o casco da chalana, logo abaixo da linha d'gua. O bandido tinha boa pontaria. O segundo tiro acertou em cheio as costas de Bezerra, como um soco.

* * *
A capivara bebia tranqilamente, sem perceber que, a alguns metros, uma sucuri saa da gua, arrastando-se oculta pelo mato rasteiro. Quando a vtima ergueu a cabea, alerta para o perigo, era tarde demais. A sucuri j vinha em meio ao bote. O berro quase humano da capivara chegou at a chalana.
Bezerra agarrava-se com ambas as mos, procurando desesperadamente alar o corpo para dentro da canoa. Quase fez com que ela virasse. No sentia dor, mas o frio da gua misturava-se com o calor do sangue que lhe escorria pelas costas.
No sabia onde fora atingido. Talvez em um rim. Tentou descansar um minuto no fundo do barco, mas a gua que entrava pelo buraco da bala, abaixo da linha d'gua, subia e obrigava-o a uma providncia urgente.
O piloto tateou no meio palmo d'gua que j invadira a chalana e localizou o buraco. No podia afundar. Agora no! Talvez no sobrevivesse, mas era preciso continuar vivo e lcido at ser encontrado por algum. A vida de Crnio dependia disso. Muitas vidas no Pantanal dependiam disso. Sem outra alternativa, meteu o dedo no buraco de bala, tapando a entrada de gua.
Um turbilho no rio despertou-o para a tragdia. O seu ferimento fizera uma trilha de sangue na gua, atraindo as mais terrveis feras da gua doce.
Piranhas!
No foi exatamente dor o que sentiu. Foi como um belisco no dedo. E, na mesma hora, Bezerra percebeu que seu dedo no estava mais ali. Apertou os dentes e apertou com fora o que lhe restava do toco arrolhando o buraco, o sangue continuava a correr, mas a gua no haveria de entrar.
Enlouquecidas pelo sangue que tingia o Taquari, as piranhas turbilhonavam sob a chalana, mordendo desesperadamente a madeira do barco, exigindo mais sangue, ansiando por dilacerar a carne que teimava em se esconder dentro daquela canoa...

***
O arranhar da chalana por baixo parecia j distante, como o sussurro de uma cano de ninar. Bezerra lutou contra o sono, que ele sabia muito bem no ser sono, mas o desfalecimento que se aproximava e que o faria soltar o toco de dedo do buraco de bala. Procurava manter a cabea levantada. Se desmaiasse, havia dentro da canoa gua suficiente para afog-lo.
Aos poucos, as piranhas conseguiam roer a madeira do casco em volta do buraco. Aos poucos, conseguiam abocanhar mais algum pedao da mo de Bezerra.
Ele tinha de resistir. Tinha de lutar contra a morte!
Um rudo de motor chegou a seus ouvidos como um coro de anjos. Talvez fosse uma lancha. Talvez ele fosse encontrado. Talvez houvesse ainda uma esperana...
Mas o motor roncava acima de sua cabea. Inferno! Era apenas um avio!
O sol queimava suas costas molhadas e ofuscou-lhe a vista quando girou a cabea para olhar o avio.
Naquele momento, lutando para se manter consciente, Bezerra lembrou-se perfeitamente dos slides que s havia descrito sob hipnose. Naquele momento, percebeu claramente que as fotos do professor Elias revelavam muito mais do que Crnio pensara ter observado ao descobrir o aeroporto clandestino.
O avio passou voando baixo, por sobre o Taquari, por sobre o piloto moribundo, refletindo o sol com seus brilhos rseos e dourados. Se ele ainda tivesse foras, teria sacudido o Pantanal com uma gargalhada.
  isso! Descobri! Avio brilhando ao sol... sol amarelo... sol vermelho... Descobri! Meu Deus! Eu tenho de viver... tenho de viver... S mais um pouco, s mais um pouco, meu Deus...

***
O pescador insistia com o policial:
 Eu tenho boa memria. Muito boa memria mesmo. Encontrei o homem, o pobre homem, ensangentado e com a mo estraalhada, quase desmaiado. Estava naquela chalana, cercado de piranhas. No sei como conseguiu!
 Repita  insistiu o policial. O que ele disse?
 Ele falou muito claro mesmo. E eu escutei direitinho, como estou escutando o senhor. No sou homem de ouvir e esquecer, nem sou homem de dizer o que no ouviu. Tambm ningum pode me acusar de aumentar o que algum disse, nem de diminuir o que...
 Chega de histria, homem!  cortou o policial.  O delegado quer que voc repita o que ouviu, palavra por palavra. O que disse o pobre coitado?
 Ele falou bem assim: "Crnio... encontrem... o Ente... Formigas-paradas... Mike Sierrabrava...  o Ente... Mike Sierrabrava... eu descobri...  ouro...  ouro puro... Crnio... pelo amor de Deus..."
 E depois?
 Depois nada. O coitado morreu nos meus braos!
11 O formigueiro do crime
 

Andrade desistira de tentar impedir que os quatro Karas viessem para o Pantanal, em busca de Crnio. Eles teriam vindo de qualquer modo, com ou sem a companhia do detetive. Assim, o jeito fora traz-los junto. Que remdio? Pelo menos, desse modo, ele poderia ficar de olho neles e proteger aqueles capetinhas que se metiam em tudo!
 Sua idia de nos inscrevermos nessa excurso para o Pantanal foi tima, Chumbinho  cumprimentou Andrade.  S assim os pais de vocs concordaram com esta viagem de "frias". Ainda mais que a agncia de turismo pertence a um tio da Magri...
 No  s isso, Andrade  raciocinou Chumbinho.
 Misturados a um grupo barulhento de turistas, no despertaremos a ateno do maldito Ente. Os homens dele devem estar espalhados por todos os lados!
 Ele deve ser um formigo mesmo  acrescentou Miguel.  Uma espcie de formiga-rainha desse formigueiro do crime no comando de centenas de formigas-soldados, que cumprem fanaticamente suas ordens...
 Um formigueiro de criminosos que protegem toneladas de ouro como as formigas defendem o fungo com que se alimentam...  comparou Miguel.  Onde estar escondido esse ouro? Debaixo da terra, como em um formigueiro?
 Que se dane o ouro!  explodiu Andrade.  Eu quero  encontrar o Crnio!
Para o gordo detetive, Crnio valia mais que todo o ouro do mundo.

***
Depois de uma baldeao em Campo Grande, o grupo de turistas embarcou em outro vo para Corumb. Agora, os excursionistas desciam o rio Paraguai em um barco grande e confortvel, em direo s desembocaduras dos rios Taquari e Capivari.
Os turistas vibravam com cada detalhe.
 Have a look, Cindy Lou darlin'! Had ya ever dream with a view like that?
 Oh, Norman! I'm afraid of the alligators...
 Don't worry! I'm here, ain't I? I11 kill some alligators with my bare hands and make a purse for ya!
E o turista, branquelo e obeso, de camisa florida, deu um berro de Tarzan, para tranqilizar a sua gorducha Cindy Lou.
Todos riram da piada do americano, at mesmo aqueles brasileiros que no entendiam uma palavra de ingls.
Estava na hora de a turma ver-se livre daquelas piadas sem graa. Magri fingiu-se de doente, e os cinco abandonaram a excurso quando o barco passou pela cidade de Nhecolndia.
Andrade decidiu que o hotelzinho onde se hospedaram seria a base das operaes.
 Precisamos saber o que a polcia local descobriu sobre o assassinato do piloto e o que esto fazendo para localizar o Crnio. Vou ver se arranjo algum barqueiro que me leve rio acima, pelo Taquari, at a vila de So Francisco. O cadver do piloto foi levado pra l.  l que devem estar investigando.
Miguel olhou rapidamente para cada um dos outros trs Karas. S o olhar para Calu baixou duas vezes at o cho. Os trs entenderam as ordens.
 Quero ir com voc, Andrade  convidou-se Chumbinho.
 Eu tambm  juntou-se Magri.
 Ento vamos todos  props Andrade.  Estaremos de volta no fim da tarde. O passeio deve ser uma beleza.
 Eu fico  recusou Miguel.  Dou uma volta pela cidade e espero por vocs.
Calu entrou no jogo de Miguel:
 , no adianta ir todo mundo. Eu espero tambm, com Miguel.
Andrade olhou para os dois rapazes e enxugou a careca com o leno. No haveria mal algum em deix-los no hotel, por algumas horas. Mesmo que aqueles capetinhas tivessem algum plano maluco, nada poderia lhes acontecer de mau numa cidadezinha como aquela.

***
Assim que os trs amigos saram, Miguel voltou-se para Calu:
 Kara, vai ser perda de tempo correr todo o Pantanal atrs do tal Ente. Andrade  o tipo do sujeito que acredita nas providncias oficiais. Por a no vamos chegar a lugar nenhum. Esse Mike Sierrabrava, como chefo do crime organizado, est mais bem protegido que o Papa. Se nem a polcia internacional conseguiu qualquer pista sobre ele, no seremos ns que vamos descobrir.
 E o que faremos, ento?  protestou Calu.  Vamos ficar tomando laranjada no hotel esperando que Crnio se vire sozinho?
Miguel tinha um plano e no aceitou a provocao.
 Se no podemos encontrar Mike Sierrabrava, Kara, vamos fazer com que Mike Sierrabrava nos encontre!
 Voc quer atrair os bandidos? Como?
 Eles devem estar por toda parte, Calu. Devem ter informantes por todos os lados. Meu plano  o seguinte: vou espalhar recados para Mike Sierrabrava em todos os bares, padarias e pontos de txi. O recado h de chegar aos ouvidos de Mike Sierrabrava, pode ter certeza.
Calu no gostou da idia.
 Bela maneira de fazer a gente desaparecer do mesmo jeito que sumiu o Crnio!
 Voc trouxe a malinha de maquiagem, como eu falei?
 Trouxe.
 Ento vamos mostrar a esse Mike Sierrabrava quem so os Karas! Voc vai criar um bom disfarce para mim, Calu. Espalharei os recados disfarado. Assim, por mais que os bandidos procurem depois por mim, nunca desconfiaro que um jovem turista hospedado no hotel  o sujeito que anda espalhando os recados.
Calu cocou a cabea.
 No estou entendendo, Miguel. Voc vai espalhar os recados sob disfarce para que os bandidos no nos localizem. Mas ns queremos que eles nos localizem! Seno, para que os recados?
 Se ns dois cairmos nas mos deles, tudo ir por gua abaixo, Calu. Apenas um de ns dever sacrificar-se para que o outro possa descobrir a pista dos bandidos. O disfarce vai impedir que os bandidos botem a mo em mim na hora que quiserem, Quero que eles me descubram quando eu quiser,
 Que histria  essa?
 Nos recados, eu pedirei um encontro com Mike Sierrabrava em algum lugar, onde irei com o disfarce. Voc estar vigiando e poder me seguir, caso eles tentem qualquer coisa.
 Muito arriscado...
  o nico jeito, Calu. A idia  apresentar-me a eles como algum que quer trabalhar com drogas. Vou bancar o pequeno traficante de So Paulo que resolveu "subir" na vida do crime!
 Eles podem no acreditar.
 De qualquer jeito vo perder algum tempo investigando o que eu disser.  o tempo de que voc precisa.
 Essa gente  muito perigosa, Miguel. Voc pode ser morto...
 Morrer no far muita diferena se eu no puder encontrar o Crnio...
 Est bem, ento. Eu topo. Mas quem vai deixar os recados sou eu.
Miguel olhou para o amigo. No adiantava discutir com a coragem de um Kara como Calu.
 Vamos tirar na sorte. Par ou mpar?
 Impar!
Deu trs. Calu ganhou. Ele seria a isca.

* * *
 Eita, barbudinho perguntador!  comentou o dono do boteco para o magrelo que queria saber quem era aquele sujeito de barbas que acabara de sair.
 E que gente estranha  essa que ele quer encontrar?
 Sei l... um tal Serrabraba... Aqui no tem ningum com esse nome, no. Foi o que eu disse pra ele. O barbudinho quer encontrar o tal Serrabraba na igreja e ele quer que eu d o recado. Mas como vou dar um recado pra algum que eu nunca vi?
 Mike Sierrabrava? No conheo ningum com esse nome, no senhor  estranhou o aougueiro.
 Eu gostaria de me encontrar com ele na igreja, s seis horas. Se aparecer algum com esse nome, por favor, d o recado  pediu o barbudinho.
  incrvel!  o detetive estava espantadssimo, enxugando a careca suada pela preocupao e pelo calor, naquela vila chamada So Francisco.  No h nenhuma ocorrncia registrada sobre o desaparecimento de Crnio. O inqurito sobre a morte de Bezerra foi arquivado como de autoria desconhecida, e o que ele disse antes de morrer foi encarado como delrio de um moribundo!
 E as palavras?  perguntou Magri.  Foram aquelas mesmo?
 Isso  o mais estranho! A anotao das ltimas palavras do Bezerra desapareceu da pasta do inqurito!
Magri suspirou, desolada:
 Pelos caminhos oficiais s vamos encontrar as providncias de Mike Sierrabrava, Andrade. Temos de investigar sem o auxlio da polcia. Vamos nos reunir novamente a Miguel e Calu. Talvez eles tenham descoberto alguma coisa.

* * *
O motorzinho da lancha roncava ao longo do Taquari quando Andrade, Magri e Chumbinho encontraram aquele barco grande, com trs homens que acenavam para eles, pedindo que se aproximassem.
O sol j se escondia por trs de um blsamo que espalhava seu perfume pelo ar e parecia perfumar at as aves, que se levantavam em revoada como um protesto contra o rudo do motor que perturbava o equilbrio sonoro do paraso.
Em meio a tanta beleza, Andrade no podia esperar o cano de trs fuzis Browning de repetio apontados para eles, de cima do barco.

* * *
 O barbudinho anda deixando recados malucos em tudo que  canto  informou o magrelo.
 Mas recados para quem?
 Para Mike Sierrabrava...
 O qu!?  o vozeiro daquele homem enorme fez tremer a magreza do informante.

***
 Quietos!  um dos homens deu uma ordem com um movimento de cabea para seus comparsas. Tragam os trs. O barqueiro pode ir embora.
Os outros dois bandidos praticamente arrancaram Andrade da lancha, enquanto o que dera a ordem mantinha seu fuzil apontado.
Chumbinho saltou para o barco grande, agarrou-se  camisa de Andrade e comeou a fazer escndalo.
 Papai! Larguem o papai!
O homem que dava as ordens baixou o fuzil e agarrou Chumbinho.
 Fique quieto, menino!
 Papai! Quero papai! Quero ir pra casa!
Magri aproveitou o momento de distrao que Chumbinho tinha provocado. Usando o Cdigo Vermelho dos Karas, rabiscou rapidamente um papel e enfiou-o no bolso do barqueiro. Foi o tempo certo. Um dos bandidos agarrou-a pelo brao e puxou-a da lancha.

***
Calu saiu desiludido do mercado de Nhecolndia. Parecia que ningum tinha ouvido falar em Mike Sierrabrava. Parecia que tudo no passara de um delrio do piloto moribundo.
Procurava um local isolado onde pudesse retirar o disfarce, quando sentiu algum agarrando-lhe o brao.
 Por favor, quer me acompanhar?
 O que  isso? Me largue!

***
 Desculpe traz-lo pra c desse jeito  falou o grandalho, educadamente.  Mas preciso fazer-lhe algumas perguntas.
 Recuso-me a falar sob presso!  bronqueou Calu, acobertado pelo disfarce.  Tenho meus direitos! Isso  uma violncia! Ou  uma brincadeira!
 Uma brincadeira?  sorriu o grandalho, aproximando-se.  Se algum est brincando no sou eu!
Com um movimento rpido, o grandalho arrancou a barba postia de Calu.
 Eu no dizia? Afinal, voc  bem jovem. Como  seu nome, garoto? Por que anda por todos os lados, com esse disfarce, fazendo perguntas sobre Mike Sierrabrava?
O plano no tinha dado certo. Calu fora apanhado longe da vigilncia de Miguel. No abriria a boca. Ele era um Kara!
 Vamos, garoto. Voc pode confiar em mim!
A voz do homem era educada, mas era grossa demais, como a de um bartono de pera.

12  0 hlito do demnio

 

Na hora do desembarque, Magri tinha conseguido enganchar um leno vermelho em um galho.
Sob a mira dos fuzis, Andrade, Magri e Chumbinho foram obrigados a entrar em um jipe descoberto. Depois de uma boa meia hora de solavancos de uma viagem pelo meio das rvores, o jipe passou pela guarda de dois homens fortemente armados, entrando em um acampamento  beira de um aeroporto rasgado no meio da mata.
 espera dos prisioneiros, um homem magro sorria, mostrando cacos de dentes amarelos.
 Aqui esto os trs perguntadores de So Francisco, Centurio. O barqueiro entregou direitinho a encomenda.
Ento era isso! Enquanto percorriam a pequena vila em busca de pistas de Crnio, o barqueiro os havia trado, comunicando-se com aqueles bandidos!
"Isso, pelo menos, tem uma vantagem"  pensava Andrade, enxugando a careca. "Se nos prenderam porque fizemos perguntas sobre Crnio, isto quer dizer que estes bandidos so os responsveis pelo desaparecimento dele. S no vejo o que adianta saber isso agora. Ningum em So Paulo tem idia do que eu vim fazer aqui. Para todos os efeitos, eu estou de licena. No posso contar com a ajuda de ningum. E agora?"
 Mira que bela chica este barquero h entrego! O desdentado olhava para a blusa rasgada de Magri.
Pedaos daquele tecido tinham ficado ao longo do caminho.
Mas aquele olhar no perturbou a menina. Magri estava furiosa pensando no barqueiro que nunca levaria o bilhete a Miguel e Calu. Ao contrrio: sua idia s serviria para entregar seus dois amigos aos bandidos!
Estavam sozinhos.
 Que violncia  essa?  protestou Andrade, indignado.  Eu e meus filhos viemos aqui para...
 Tu e tus hijos?  cortou o Centurio, aproximando-se de Andrade.  Pelo que s, tu eres ei detetive Andrade, de So Paulo, y no tienes hijos. Solo no s por que essos dos chicos vieram contigo...
 Como sabe de tudo isso? 
Novamente aquele sorriso pavoroso.
 Soy um hombre dei Ente. Y ei Ente sabe de tudo, detetive Andrade...
O Ente! Andrade sentiu-se gelar, apesar do forte calor. Tinham cado na pior arapuca criminosa do universo!
 Ente?  disfarou o detetive.  De que o senhor est falando? Somos turistas, no sabemos de nada. Estvamos indo para...
 Quero ir pra casa da tia Matilde, papai...  choramingou Chumbinho, oferecendo uma idia ao detetive.
 Est... estvamos indo para a fazenda de dona Matilde. No temos nada com...
O Centurio soltou uma gargalhada sinistra, bafejando um fedor dos demnios sobre o detetive.
 Dona Matilde? Quieres decir tia Matilde?
 Qual  a graa?  enfureceu-se Andrade.  A fazenda de dona Matilde deve ficar perto daqui. Exijo que nos levem para l! Seno eu juro que...
 Lo juras? No ests em condiciones de jurar nada, detetive. Despus que yo receba Ias ordenes dei Ente, ya no estars en condiciones de hacer nada. Solo de divertir-se con la compania de las minhocas, bajo la tierra! Por ahora, ustedes van a passar la noche en la casita... Levem-nos!
Chumbinho e Andrade foram empurrados para dentro de uma gaiola de bambu. O desdentado aproximou-se de Magri.
 Que bela chica! Es una pena quedarse en la casita...
Andrade jogou-se contra as barras de bambu e sacudiu violentamente a jaula, que acabara de ser trancada a cadeado.
 Maldito! Largue a menina!
O Centurio riu-se, antegozando o prazer que aquela linda menina poderia lhe trazer e saboreando a raiva do detetive.
 Cale a boca, gordalhn! Quieres que Ia chica pegue um resfriado en la casita? Ela ficar mucho mais confortable en la barraca dei Centurio! Ahora tienes un namorado, chiquita!
 Magri!... No! Solte a menina!... No!
Enquanto o Centurio arrastava Magri para longe, Andrade comeou a chorar, desesperado.

***
Entardecia.
Os homens que levaram Calu at o casaro no agiam com brutalidade, mas tambm no admitiam dilogo. Nem resistncia. O casaro, j um tanto malhado pelo tempo, era cercado por um muro muito alto, como uma priso.
Calu olhava pela janela, atrs do homem grande, cuja figura recortava-se em silhueta  sua frente, como o demnio principal do inferno. De um inferno do qual o ator dos Karas planejava escapar, na primeira oportunidade. O problema era descobrir como, pois a janela era gradeada e os dois homens que o trouxeram montavam guarda alm da porta.
 Quem  voc, garoto?
A voz do grandalho trovejava, mas no parecia agressiva. Havia, porm, uma enorme pressa e ansiedade em suas perguntas. O homem no queria perder tempo.
 O que voc sabe sobre Mike Sierrabrava? Por que perguntar por ele sob disfarce? De quem voc est se escondendo? Por que veio de So Paulo at aqui para...
 Como sabe que eu vim de So Paulo?
 No  difcil adivinhar. Com esse sotaque...
Calu tentava raciocinar depressa. Ele estava sendo tratado sem agressividade, at com uma certa gentileza. Quem seriam ento aquelas pessoas que o haviam capturado porque ele perguntara sobre Mike Sierrabrava? Calu lembrou-se do que tinha dito Miguel: "Uma espcie de formiga-rainha desse formigueiro do crime...". A formiga-rainha! O grande formigo! Grande como...
 Voc no quer falar, no , garoto? Nem o seu nome? Bem, ento deixe que eu me apresente. Todo mundo me conhece como Senador, aqui no Pantanal. Estou no comando de uma grande operao que deveria ser secreta, mas cada dia fica mais difcil manter o segredo. Aposto que voc j sabe o que estamos fazendo aqui, no sabe? Seno por que estaria metendo o nariz num negcio que no  da sua conta? Seno por que estaria calado agora? 
O rapaz resolveu seguir com o jogo que Miguel tinha planejado. O silncio no o levaria a nada.
 E se eu soubesse mesmo de tudo isso? E se eu quisesse me juntar a essa operao?
O grandalho soltou uma gargalhada, num volume alto demais para quem pretende se manter secreto:
 Voc est me pedindo emprego, garoto?
 Vamos supor que sim, Senador. Ou devo cham-lo de "O Ente"?
O homem parou subitamente de rir e olhou com estranheza para o prisioneiro.
 Como disse?
 Eu disse "O Ente"...
O Senador ficou subitamente ansioso:
 O que sabe sobre o Ente? O que sabe sobre Mike Sierrabrava? Vamos, diga logo! Eu preciso saber. O que sabe de Crnio?
O nome do amigo soou como uma sirene de alerta aos ouvidos de Calu. Aquele homem poderia ser o responsvel pelo desaparecimento de Crnio. Seria um risco Calu admitir qualquer ligao entre os dois.
 Crnio? Nunca ouvi falar...
O Senador levantou-se e quase colou o seu rosto ao de Calu.
 Acho que voc sabe. Voc tambm  de So Paulo. Tem a mesma idade.  to enxerido quanto ele. O que voc est escondendo?
Nesse momento, o telefone soou. O Senador atendeu, sem desviar os olhos de Calu.
 Sim, sou eu... Como? A entrevista no rdio? Tinha esquecido... J estou indo. Precisamos de toda a publicidade que pudermos conseguir...
Desligou e voltou-se para o prisioneiro.
 Vou ter de sair. H livros e uma lata de bolachas ali, sobre o mvel, garoto. Pode ficar  vontade. S no aconselho tentar sair desta sala. Talvez eu demore um pouco. Depois retomaremos nossa alegre conversao.
Abriu a porta e saiu.
O ator dos Karas tinha ganho algum tempo. Estaria a uma oportunidade. Era preciso fugir dali, sem demora. Era preciso encontrar Miguel. Juntos poderiam tentar alguma coisa, comunicar-se com Andrade, tentar a ajuda da polcia, qualquer coisa!
Mas como fugir do casaro? Como passar pelos dois bandidos na porta? Como saltar aquele muro alto? Mas havia um jeito. Ah, sim, havia uma sada! S o Senador o vira sem barba, sem o disfarce. Nenhum dos bandidos que o guardavam tinha visto seu rosto, ou sequer suspeitava que havia um rapazinho naquela sala. O Senador sara apressado. Talvez no tivesse tido tempo de contar que o homem barbado que ali entrara era falso. Ele talvez tivesse uma chance!
Teria de representar. Era sua especialidade. Vasculhou toda a sala  procura de uma idia salvadora. Havia um banheiro anexo. Calu tirou o palet, todo com enchimentos, que o fazia parecer mais velho e mais gordo. Sujou a camisa e a cala com terra de um vaso com um antrio j murcho. Ajoelhou-se sob a pia e comeou pacientemente a desatarraxar os canos e o sifo.

***
O barqueiro j estava quase chegando a Nhecolndia quando descobriu o bilhete no bolso, ao procurar fumo para fazer um cigarro. No sabia ler, mas sabia que aquele bilhete deveria ser entregue sem demora ao Ente, ou sua vida no valeria um tosto.
O barqueiro saiu sem receber um tosto como gorjeta pelo servio, enquanto o intermedirio do terrvel Ente desdobrava o papelzinho.
 "Fombermombers caisptufterraisdombers nomber rinisomber. Sinisgaism Penterquenternomber Pomberlentergaisr. Entregar para Miguel, em Nhecolndia, no hotel...". Que lngua mais estranha! Como  que eu vou... Bom, o jeito  perguntar ao Ente.
Ligou um sofisticado aparelhamento de rdio.
 O Ente est em Nhecolndia  informou a voz que o atendera.  Use a freqncia da mesmo.
Mais alguns minutos e o intermedirio estava falando pelo rdio com outro agente da quadrilha.
 Quer dizer que o bilhete foi entregue pela menina que est conosco l no acampamento do Centurio?... ?... Um momento...
Depois de algum tempo, a voz se fez ouvir novamente.
 O Ente diz que esse detetive deve fazer parte de algum plano maior. Seno no estariam usando cdigos, como espies. O Ente diz que no vai adiantar nada capturar o tal Miguel agora. Precisamos saber quais so as outras ligaes dessa turma. Deixem a mensagem no hotel, como a espizinha pediu, e no faam mais nada. Nosso grupo vai ficar de olho e seguir esse Miguel. Ele deve ser apenas um agentezinho sem importncia. Precisamos saber quais os peixes que esto por trs dele. Entendido?
A porta do escritrio do Senador se abriu, e um jovem, com a roupa toda suja, carregando um sifo e alguns pedaos de cano, saiu e foi logo falando:
 J terminei o servio. O banheiro est desentupido. Agora quero meu dinheiro!
 Como?  perguntou um dos vigias, meio confuso.
 Como o qu? Meu servio est pronto. Agora quero o combinado. So cinco pacotes!
 Tudo isso? Mas eu no sabia...
O rapaz ficou enfurecido:
 No sabia?! Que histria  essa? Vo querer me enrolar, ?
Pela porta atrs do "encanador" via-se uma poltrona de costas e o cotovelo de um palet. Fumaa de cigarro subia do outro lado da poltrona, como que mostrando que o prisioneiro no estava interessado nem um pouco naquela discusso.
O "encanador" no desistia.
 Quero meu dinheiro! Daqui no saio sem o meu dinheiro!
 Veja como fala, rapaz!  advertiu um dos homens.  Se o Senador combinou esse conserto, eu no sei de nada.  melhor voc voltar amanh e falar com ele.
 O qu?! Voltar amanh? Uma vrgula! Vocs pensam que podem me enrolar? Quero minhas cinco notas! Quero agora, ou daqui no saio, daqui ningum me tira!
Os homens foram se irritando com a malcriao do "encanador".
 Seu moleque sem educao! Vamos mostrar se voc sai ou no sai daqui!
 No saio! Nem por bem, nem por mal! Sem o meu dinheiro, vou ficar aqui at...
O "encanador" foi agarrado pelo colarinho e expulso do casaro com maus modos.
 Mas que garoto atrevido!  ouviu-se uma voz atrs do porto macio, que acabara de fechar-se s costas de Calu.
O ator dos Karas escondeu o sifo e os canos numa touceira e correu para o hotel, em busca de Miguel, sorrindo com a anteviso da cara que fariam aqueles dois bandidos quando encontrassem o palet do "barbudinho" recheado com bolos de papel e cuidadosamente montado na poltrona, onde ele tinha deixado um cigarro aceso no cinzeiro... O que diria Mike Sierrabrava? Bem, aquela era apenas a primeira das surpresas desagradveis que Calu estava disposto a aprontar para o Ente!
13 Nos dentes da morte

 
Os pulmes de Crnio retorciam-se  procura de oxignio quando o garoto se sentiu agarrado em seu mergulho para a morte. Deveriam ser piranhas, ou jacars, que vinham transformar seu afogamento em uma morte mais rpida.
Crnio apertou os olhos, preparando-se para o que no podia ser evitado. Era um jacar, na certa, que abocanhara o saco e agora o arrastava pela correnteza. Parecia pux-lo para cima,  tona.
Subitamente, uma lufada de ar entrou pela boca do saco, enchendo-lhe os pulmes, trazendo-lhe mais alguns segundos de vida.
Por que o jacar no mordia logo, para acabar de uma vez com aquela agonia?
Sentiu um baque. Um choque contra alguma coisa dura. E um dente comprido cortou o saco.
Pelo rasgo, o ar e a luz invadiram.
A luz fez o "dente" brilhar.
Era uma faca!
Crnio entendeu que a morte era aquilo, e que o demnio que viera busc-lo era um velho "jacar", de faca na mo, olhando fixamente para ele. Desligou-se daquela morte, fechando os olhos e mergulhando profundamente em um rio mais calmo, feito de febre e exausto.

***
Crnio no se lembrava de sonhos. Sua ltima lembrana era a imagem assustadora da morte, que agora se misturava a uma frase muito estranha impressa em uma camiseta,  sua frente: "South Dakota University"!
Aos poucos, acima da frase, um rosto sorridente, de culos escuros, parecia feliz em olhar para o rapazinho, como se admira um beb que acaba de nascer.
 Robson! ndio Robson!
 Moo novo! Resolveu acordar para a vida? Robson est contente!
 Ento eu no estou...
 Morto? Quase. Por oito dias esteve quase... Crnio olhou as prprias mos. Eram duas trouxas amarradas com trapos que seguravam camadas de folhas gordurosas.
 O cemitrio de jacars... voc desapareceu... voc... me tirou do rio...
 No. Foi Pacaman.
 Quem?
 Voc est na aldeia dos Ta-pit, moo novo. Os dois brancos que o carregavam esto no fundo do rio. Pacaman no erra uma flecha.
 Oh, Robson, o que  tudo isso? Voc precisa me expli...
 Agora no, moo novo. Descanse. A infeco foi muito grande. Teve uma semana de canto e pajelana pra tirar voc da morte. Agora durma. Desta vez voc escapou.
A palhoa era escura e Crnio adormeceu novamente, lembrando-se que aquela era a segunda vez que ele sobrevivia ao Pantanal.
Parecia entardecer quando Crnio abriu novamente os olhos. Ergueu-se da rede, com dificuldade. Estava numa palhoa. Sob seus ps, uma esteira cheia de pedras redondas, uma sacola de lona, gamelas com ungentos estranhos, penas, cachimbos e uma moringa d'gua.
Bebeu quase toda a gua. Sentou-se sobre as pernas e sentiu saudades de sua gaitinha. O que teria acontecido com Bezerra? O que teria feito o Centurio ao descobrir a troca de "cadveres"? Bezerra teria conseguido salvar-se? Teria falado com a polcia?
Abriu a sacola de lona. Uma lanterna, um faco, uma bssola, fsforos e uma infinidade de analgsicos, antitrmicos e antibiticos. Ergueu a pontinha da trouxa de trapos de uma das mos. Por baixo das folhas e dos ungentos, havia um curativo perfeito de gaze e esparadrapo!
 Robson j ajudou na enfermaria da Funai, moo novo  a figura do ndio de culos escuros recortava-se contra a entrada da palhoa.  Os Ta-pit foram buscar a sacola l na chalana afundada. Robson achou que a penicilina podia dar uma ajuda aos cantos e  pajelana...
Crnio sorriu. Pensava nunca mais tornar a ver aquele ndio. E agora devia sua vida a ele.
 Quem so esses Ta-pit?
 Veja por voc mesmo, moo novo. Voc j est melhor. Venha comigo. Peor mandou busc-lo.
 Peor? Quem  Peor?

***
No centro de um crculo formado pelas palhoas da aldeia, um pequeno grupo de ndios esperava pelo garoto.
Crnio esfregou os olhos. A claridade era pouca para ofuscar-lhe a viso. Mas o que ele via ofuscava por completo as idias que sempre fizera sobre os ndios do Brasil.
Era um grupo de velhos. O mais novo deles, um gigante, aparentava uns sessenta anos. Mas parecia forte como um jovem. Todos cobriam-se parcialmente com peles de jacar em tiras, e a cabea do animal, como um capacete, emoldurava-lhes os rostos, que apareciam encaixados na bocarra escancarada dos jacars. Pinturas de urucum e jenipapo cobriam-lhes os corpos. Estavam paramentados para alguma guerra. Contra quem?
Ao lado do garoto, Robson cochichou:
 Estes so os Ta-pit, moo novo. Uma tribo de velhos. Talvez nem seja uma tribo, pois cada um vem de um povo diferente. So terenas, caidiveus, guaranis, guats, paiagus, guaicurus... S esto juntos por causa de Peor.
O olhar de Crnio focalizou o centro do grupo. No era preciso apontar quem era Peor.
Poderia ter cem anos. Ou mais. Ningum saberia definir. Mas ningum podia negar a autoridade que emanava aquela figura impressionante. A figura de um lder. Daqueles que quando dizem "vamos!" todos vo, sem perguntar aonde nem por qu.
 Como voc veio parar aqui, Robson?  perguntou Crnio, bem baixinho.
 Peor mandou buscar Robson. Afundaram nossa chalana. Agarraram Robson e deixaram o moo novo sozinho.
 Por qu? O que os Ta-pit queriam com voc?
 Peor  o pai do av de Robson...
 Seu bisav?
 Peor  um guaicuru, como Robson. Os guaicurus foram ndios cavaleiros no passado. Peor  um dos poucos que restam. Um dos poucos que no andam bbados, pelas vilas, pedindo esmolas...
 Onde esto os moos, Robson? Onde esto as crianas da tribo?
 No h crianas. No h jovens. Os Ta-pit esto desaparecendo. Como os jacars. Como o Pantanal, que eles defendem...
O grupo de velhos ndios estava esttico, como em um quadro. Crnio e Robson cochichavam entre si como se estivessem num museu, observando aquele quadro. O rapaz lembrou-se do Senador e da comparao que fez dos ndios pantaneiros com um quadro de Van Gogh que estaria desaparecendo do mais completo museu do mundo.
Como se o quadro falasse, a voz do ndio centenrio quebrou aquela expectativa.
 Araguau!
Era um chamado. Uma ordem. Robson avanou, vacilante, e postou-se ao lado de Peor.
Ento o verdadeiro nome de Robson era Araguau? Ento aquele guia alegre, de culos escuros, radinho de pilha e camiseta impressa com o nome de uma universidade americana era bisneto de um rei da cultura pantaneira, quase em extino? Ento aquele ndio fantasiado de branco era um prncipe? Araguau tinha virado Robson? Seria este o destino dos ndios do Brasil?
Peor falou. Mas no era possvel compreender as palavras. Tudo o que Crnio pde entender foi a segurana e a deciso de seu discurso. O gigante falou tambm. Sua fala era arrogante, agressiva, dura. Entre os dois, assustado, Robson parecia um recm-formado advogado que defendia sua primeira causa, mas j sentia o gosto da derrota.
 O moo novo  gente boa. No  um coureiro.
A fala do gigante, que Crnio logo percebeu ser Pacaman, voltou agressiva, discordante, agora j uma ameaa. E o gnio dos Karas entendeu contra quem era aquela ameaa.
 Fale portugus, Pacaman, para o moo novo entender  pediu Robson.
Quem falou foi Peor.
 ndio que esquece a prpria lngua fica mudo!
 Mas todos aqui sabem portugus  argumentou o guia ndio.  Todos j viveram nas cidades. Por que ento...
 Porque ndio na cidade dos brancos deixa de ser ndio e no consegue virar branco, Araguau!  cortou Peor.  Voc  neto do filho de Peor. Voc  um guaicuru. No virou branco tentando viver como um branco. E deixou de ser ndio. O que voc  agora, Araguau? Voc no  mais nada!
Robson tentou falar. Mas seus argumentos travaram-se   na garganta.
 Por que tapa o sol com vidros negros, Araguau? De que se esconde, Araguau? Da luz? A luz sabe que voc  um guaicuru. Voc tem vergonha de ser um guaicuru?
A luz no tem vergonha de ser luz, mesmo quando ela tem de desaparecer,  noite. A luz sabe que o dia voltar, e ela ser luz novamente. Saia dessa noite, Araguau. Seja luz novamente!
O guia ndio estava nervoso, mas no baixava a cabea. No sabia mais como tratar a si mesmo. Se Robson ou Araguau. Resolveu ficar no meio. Pela primeira vez, tratou a si mesmo como "eu".
 Peor viveu a vida toda junto com os brancos, como eu. Foi guia no Pantanal, como eu. Aprendeu tudo do mundo dos brancos, como eu. Por que tenho de me envergonhar por fazer as mesmas coisas que Peor?
 Peor ensinou Araguau a ser guia no Pantanal  falou o velho ndio, pausadamente.  Araguau aprendeu muito bem. Agora, Peor mandou Ta-pit pegar Araguau no cemitrio dos jacars porque tem coisas mais importantes para ensinar. Mas Araguau tem de mudar. Peor quer que Araguau volte a ser gente. Quer que Araguau volte a ser um guaicuru. Que volte a ser um ndio. Peor quer que Araguau seja o novo guardio do segredo Ta-pit!
O gigante Pacaman trovejou, em protesto.
 O novo guardio do segredo Ta-pit deve ser Pacaman!
Peor sacudiu a cabea.
 Pacaman  violento. A guarda do segredo Ta-pit no pode ser feita com sangue!
 Derramar o sangue dos brancos  a nica maneira de impedir que seque o sangue dos ndios!
 No  matando que se vive, Pacaman.  sobrevivendo que se vive!
Peor estava imvel, como uma esttua falante. Mas Pacaman usava o corpo todo para argumentar. Batia com a lana no cho, curvava-se, agitava os braos. A expresso de seu rosto encaixado entre os dentes do jacar era negra e vermelha, de tinta e de raiva.
 O Pantanal ensinou Pacaman a ser um ndio. Mas Pacaman viveu muito tempo servindo os brancos. Pacaman aprendeu muito com os brancos. Aprendeu at a ser um ndio melhor. O ndio tem de ser como o homem branco e tem de ser como a ona. Para avanar silenciosamente, tem de ser a ona. Para matar, tem de ser o homem branco e saber usar a zagaia. Pacaman aprendeu que tem de ser a fera silenciosa da natureza e a fera assassina da civilizao dos brancos. Para sobreviver, tem de matar!
Peor falou, como uma sentena definitiva:
 O segredo Ta-pit no  um segredo de morte.  um segredo de vida.  a nica sada para a sobrevivncia dos ndios. Peor recebeu esse segredo das mos do av. Peor guarda esse segredo toda a vida, mas agora est na hora de passar a guarda para outro.
A voz do gigante respondeu, ameaadora:
 Para Pacaman! Pacaman saber guardar o segredo Ta-pit, como sabe guardar a vida dos jacars. Os coureiros esto destruindo os jacars. Pacaman destri os coureiros e enche a boca deles com formigas, para que os outros aprendam o que lhes acontecer!
Os coureiros mortos no cemitrio de jacars! O coureiro magro, com formigas carnvoras na boca, morto perto da fazenda do Senador! Fora Pacaman! Ento... os Formigas-paradas! Aqueles eram os Formigas-paradas! Ta-pit queria dizer Formigas-paradas! Crnio estava em poder dos espritos assassinos do Pantanal!
 Pacaman j andou demais pelos caminhos da morte!
Por um instante, Crnio sentiu uma ponta de frustrao. Ele deduzira errado. Os Formigas-paradas no tinham nada a ver com o Ente. Os coureiros no estavam sendo mortos pelos bandidos do Centurio. Aqueles velhos ndios nada tinham a ver com o crime organizado. Eles eram as vtimas que tentavam se organizar para morrer com dignidade...
Crnio passara uma pista falsa ao piloto Bezerra. "Mas isso no tem importncia!"  pensou.  "O que importa  que eu sei quem  o Ente! Ah, isso eu sei!"
Peor desafiava o gigante.
 Pacaman pode matar todos os homens brancos?
 Pacaman pode morrer tentando!
Crnio sabia que ele era o centro daquela discusso, embora ningum olhasse para ele. Sabia que sua vida estava em jogo. Peor e Pacaman discutiam um com o outro, mas no pretendiam, com seus argumentos, convencer um ao outro. Era o grupo inteiro que eles pretendiam convencer, como se aquele grupo de ndios velhos fosse o corpo de jurados de um julgamento e o garoto o ru!
Quase imperceptivelmente, o grupo se movia. Em pouco tempo, Crnio foi cercado pelos Ta-pit. Ficou no centro do crculo, com sua vida nas mos de Peor. Ou de Pacaman...
A lana curta de Pacaman zunia em volta de Crnio, perigosamente manipulada em crculos pelo velho gigante, que girava em volta do garoto com uma expresso incendiada pelo urucum.
 Pacaman tirou o menino coureiro do rio. Pacaman cantou, Pacaman danou, Pacaman fez pajelana e os espritos do rio no levaram a vida do menino coureiro. Agora, a vida do menino coureiro  de Pacaman!
A ponta da lana foi encostada na garganta de Crnio. Imvel, Pacaman tinha terminado seu discurso. A palavra agora era de Peor.
O ndio centenrio estava de p. Sua figura encarquilhada tinha a imponncia de um deus. Sua voz firme tinha a segurana de um sbio que tudo aprendeu da vida, e chegou ao fim dela com todas as dvidas.
 O homem branco est matando os jacars. O homem branco est matando o Pantanal. O homem branco est expulsando o ndio e cercando a liberdade das terras. Por isso Peor voltou para a aldeia. Por isso Peor reuniu os Ta-pit.
Com o brao estendido, o velho ndio apontou por toda a sua volta, como que incluindo a natureza em sua argumentao.
 Mas de que adiantou reunir essa nova tribo? Os Ta-pit so velhos e poucos como os jacars. Peor aprendeu a falar a lngua dos jacars. Mas Peor no fala mais a lngua guaicuru. Nenhum ndio mais fala a lngua guaicuru.
Talvez as ltimas palavras do meu povo estejam perdidas entre as rvores, sendo repetidas pelos papagaios. Mas os papagaios no sabem o que falam. No podem transmitir a sabedoria guaicuru para as crianas. No podem manter unida nossa tribo.
Crnio permanecia imvel. Olhos nos olhos de Pacaman, no conseguia ler seu destino. S podia esperar.
 Peor reuniu ndios como ele s para que todos morram juntos como morrem as velhas rvores que no deixaram sementes? No. Peor chamou todos os ndios que no aceitaram o mundo dos brancos. Todos que queriam voltar a ser ndios. E a esses Peor ofereceu uma esperana. A esperana do segredo Ta-pit!
O que seria o segredo Ta-pit? O que seria o segredo dos Formigas-paradas? A ponta da lana na garganta e o medo impediam Crnio de engolir, mas no o impediam de pensar.
De dentro do manto de tiras de pele de jacar, Peor tirou um pacote. Um pacote embrulhado tambm em couro de jacar escurecido pelo tempo.
 Durante todos esses anos, at mesmo durante o tempo em que viveu entre os brancos, Peor guardou o segredo Ta-pit. A esperana Ta-pit. O feitio que o av de Peor deixou antes de morrer. Peor no conhece o segredo, mas sabe que aqui est o feitio que impedir que o ndio desaparea. Aqui est o segredo que far com que o ndio volte a ser forte, volte a ser muitos, volte a caar livremente pelo Pantanal!
A voz do velho ndio alteou-se.
 Este  o feitio da vida, Pacaman! No o feitio da morte. Enfrentar o branco  o mesmo que justificar o assassinato do ndio. Morrer lutando no  tentar viver. Viver tentando  resistir. Pacaman tirou duas vezes este menino do esprito da morte. Ento Pacaman sabe dar a vida. A vida do menino  de Pacaman. Pacaman deve devolver a vida ao menino!
A lana tremeu apoiada no pescoo de Crnio quando aquele discurso foi interrompido pela invaso de mais algum, que chegava falando excitadamente.
Pacaman voltou-se para a voz recm-chegada, retirando a lana. Crnio quase desfaleceu nos braos de Robson, que correu a ampar-lo.
Quem falava agora era uma ndia, to velha quanto os outros.
Abraando o prisioneiro, Robson traduziu:
 A mulher diz que tem mais gente presa no lugar de onde voc fugiu. Menino pequeno, menina bonita, homem gordo, sem cabelos... Homem gordo chora, enxuga careca com pano...
Crnio afastou-se do abrao de Robson e cambaleou, tonto pela fraqueza e pela revelao. Eram seus amigos! S podiam ser seus amigos! Tinham vindo salv-lo e caram nas garras do Centurio!
 So meus amigos, Robson! Me ajude a salv-los! Me leve at l!
Fez-se silncio na mesma hora. Era a primeira vez que os Ta-pit ouviam a voz de Crnio. A todos pareceu estranho que o prisioneiro no implorasse pela prpria vida, mas pedisse ajuda para socorrer outros condenados.
Crnio voltou-se para o centenrio lder dos Formigas-paradas.
 Peor falou em vida. Me ajude! Me ajude a salvar a vida dos meus amigos!
A febre parecia voltar. Sua excitao no era normal. Agarrou a lana de Pacaman e enfrentou o olhar gelado do velho gigante.
 Minha vida  sua, Pacaman. Seja ento dono de mais trs vidas! Depois faa o que quiser com a minha!
A noite j tinha cado completamente sobre a aldeia, e os olhos de Pacaman ressaltavam-se como duas luas no negro-rubro de seu rosto.
 Pacaman vai!
O guia ndio amparou novamente o rapaz.
 Robson vai, moo novo!
A voz calma de Peor coroou a deciso.
 Os Ta-pit vo!

14 Ningum escapa do grandalho
 

Miguel olhou mais uma vez para o relgio. Seis horas! quela altura, Calu j deveria ter voltado ao hotel para que os dois fossem  igreja encontrar-se com Mike Sierrabrava. O que teria acontecido com o ator dos Karas?
O telefone do quarto tocou. Era da portaria do hotel.
 Tem um recado aqui para o senhor Miguel...
 Um recado? J vou a!
O rapaz nem se preocupou em disfarar a ansiedade. Em um minuto estava na portaria, com o bilhete nas mos.
A letra de Magri! O Cdigo Vermelho!
"Fombermombers caisptufterraisdombers nomber rinisomber. Sinisgaism Penterquenternomber Pomberlentergaisr". Miguel traduziu na hora. Era s substituir "ais" por "a", "enter" por "e", "inis" por "i", "omber" por "o" e "ufter" por "u"..
"Tenho de procurar ajuda"  pensou o garoto.  "Andrade disse que a polcia do mundo inteiro est atrs do ouro da Mfia. Ser que devo procurar a polcia?"
Miguel no era de confiar nos adultos, e muito menos na polcia. Se o crime organizado estava agindo com tanta fora no Pantanal, no seria de esperar que houvesse bandidos infiltrados dentro da prpria polcia?
E agora? O que poderia fazer o lder dos Karas? Como procurar, sozinho, seus trs amigos por todo o Pantanal?
Sentado na poltrona semidestruda do saguo do hotelzinho, Miguel ouvia vagamente uma msica sertaneja que vinha do radinho da portaria. Em seguida, o locutor anunciou algum muito importante que estava nos estdios para uma entrevista. Aos poucos, Miguel comeou a interessar-se por aquilo que ouvia.
 Interesses externos esto destruindo o paraso onde vivemos  declarava uma voz mais grave e mais bonita que a do locutor.  O Pantanal est sendo destrudo para garantir o fantstico enriquecimento de uns poucos que, fora de nosso pas, controlam o comrcio de peles de jacar, de contrabando de carros roubados e de drogas!
 Mas o que esto fazendo as autoridades, Senador, para combater essa situao?  perguntou o reprter.
 Este no  um problema apenas das autoridades.  um problema de todo o povo pantaneiro.  um problema de todo o Brasil.  um problema de todo o mundo  respondeu a voz grossa.  Precisamos estar unidos nesta hora porque um crime maior est dirigindo sua ganncia sobre o Pantanal. Estou colocando meu poder, meu dinheiro e minha influncia nesta luta. Peo a confiana da populao. Qualquer informao pode nos ajudar nesta cruzada contra a destruio e contra o crime. Ou o Pantanal volta a ser o paraso que a natureza criou, ou eu morro junto com ele!
Ali estava algum que falava a mesma lngua de Miguel. Algum que pedia confiana. Algum que poderia ajud-lo!
O lder dos Karas conseguiu o nmero do telefone da estao de rdio e discou.

* * *
 Al?... Quem?... Um estudante de So Paulo quer falar com o Senador?... Sim) ele ainda est no estdio... Um momentinho...
A voz grossa e envolvente no se fez esperar. Miguel resolveu falar pouco.
 Senador? Ouvi sua entrevista. Tenho informaes sobre o Ente...
A voz trovejou do outro lado.
 Quem?! O Ente? Onde voc est? No hotel? Chego a em um minuto!

** *
Aquele homem ocupava boa parte do quarto de Miguel. Falava afavelmente. Sua voz era mais impressionante ao vivo do que pelo rdio.
 Acalme-se, garoto. Ns vamos ajud-lo. E voc vai nos ajudar, se tiver alguma pista sobre o Ente...
  uma longa histria, Senador. L em So Paulo, um professor de matemtica, do colgio onde eu estudo, foi assassinado h quase duas semanas...
 Professor Elias, no ?
 Sim.  ele. Como sabe?
 Sabemos de muita coisa, garoto. Mas fale voc primeiro.
 Um colega nosso inventou uma ligao maluca entre o assassinato desse professor e o Pantanal. Decidiu vir para c, sozinho, para provar sua teoria.
 Meu Deus!  exclamou o Senador.  No me diga que esse colega  o Crnio!
 Sim!  o Crnio! O senhor o conhece? Onde est ele?
 Estamos vasculhando todo o Pantanal atrs do seu amigo Crnio, garoto...
Tentar localizar Crnio tinha sido o motivo da viagem de Andrade e os Karas para o Pantanal. Agora, a isso se somava a captura de Andrade, Magri e Chumbinho. E ainda havia Calu, que no voltara ao hotel. O lder dos Karas resolveu no falar de Calu para o Senador, nem do seu plano de entregar o amigo disfarado nas mos do Mike Sierrabrava e segui-lo depois para descobrir o covil do terrvel Ente. De nada adiantaria vasculhar a cidadezinha em busca de um Kara como Calu, que, at indcios em contrrio, sabia se virar sozinho. Calu era um ator de grande talento e o rapaz mais bonito do Colgio Elite. Mas no era de posar como um filhinho de papai. Em ao era um gato selvagem.
 Ainda no encontramos Crnio, mas no vamos desistir, garoto  prometeu o Senador.  Confie em mim. No sou um simples fazendeiro. Estou no comando da nica organizao que pode ajud-lo neste momento.
O grandalho transmitia segurana. Inspirava tranqilidade. Era algum que se encontra com alvio num momento difcil como aquele. Miguel tinha de colocar-se nas mos do Senador. Era preciso arrancar seus amigos das garras do supercriminoso que chamavam de O Ente.
 Parece que o Ente apanhou o detetive Andrade, Magri e Chumbinho, Senador. Eles desceram o rio Taquari, em um barco, at a vila de So Francisco, para descobrir como esto indo as investigaes sobre a morte do piloto Bezerra e o desaparecimento de Crnio. E, agora, algum entregou este bilhete no hotel. Foi escrito por Magri. Veja.
O Senador no entendeu coisa nenhuma.
 Est em cdigo, Senador. Uma brincadeira que inventamos no colgio. Achamos que a brincadeira poderia servir, em circunstncias como estas...
Naturalmente Miguel no revelaria a existncia dos Karas como um grupo organizado. Era melhor fazerem-se passar por uma turminha de estudantes inocentes.
 Mas o que est escrito a?
 "Fomos capturados no rio. Sigam Pequeno Polegar."
 Que histria  essa de Pequeno Polegar? Como vamos...
  fcil, Senador. O Pequeno Polegar, para no se perder na floresta, foi espalhando pedrinhas coloridas pelo caminho. Magri deve ter pensado em algo assim. Deve ter deixado pistas para serem seguidas. O Senador suspirou, desanimado.
 Histrias de crianas! Pode at ser fcil seguir a pista. O problema  descobrir onde essa pista comea!
 Eles foram capturados no rio Taquari, Senador  argumentou Miguel.  Isso deve ter acontecido, na ida ou na volta, em algum ponto entre a vila de So Francisco e Otlia, de onde o barco partiu e para onde deveria voltar.
 De Otlia a So Francisco? So mais de 70 quilmetros de rio...
  nossa nica chance, Senador... O grandalho levantou-se, decidido.
 Certo! Vou organizar uma expedio e vamos encontrar seus amigos.  melhor voc passar a noite no meu casaro. Sairemos l pelas trs da manh. Devemos chegar antes do amanhecer em Otlia. Vamos vasculhar as margens do Taquari, comeando de madrugada!

***
Era noite fechada quando Calu voltou para o hotel.
Ainda estava a uns cem passos quando o que viu gelou-lhe o sangue nas veias: Miguel saa do hotel ao lado de um homem muito grande que lhe segurava o brao. Os dois entraram num Opala, que arrancou velozmente, levantando a poeira das ruas esburacadas de Nhecolndia.
O Senador! O grandalho tinha perdido um peixe, mas logo em seguida tinha agarrado outro nas malhas de sua rede! E Andrade? E Magri? E Chumbinho? J deveriam estar de volta. O que teria acontecido com eles?
Qualquer um perderia a cabea naquele momento. Mas pnico no era a palavra que poderia definir um Kara em ao. Calu controlou a ansiedade e procurou raciocinar. No podia subir para o quarto. Certamente os bandidos estavam de tocaia.
O rudo de motor fez com que ele se escondesse rapidamente. Um espalhafatoso e antigo Cadillac rosa-choque encostava em frente ao hotel. O empregado da portaria apareceu, pressuroso, cheio de sorrisos, e abriu a porta do automvel.
 Tia Matilde! Que honra receber a senhora em nosso hotel!
Uma mulher alta e magra, vestida de cor-de-rosa, aceitou a mo que o empregado lhe estendia para ajud-la a sair do carro. Deveria ter uns sessenta anos, mas a ajuda era intil, pois a mulher parecia em melhor forma fsica do que o empregado.
 Esta espelunca  a nica disponvel, no ? Tem algum apartamento decente?
 Para a senhora, temos o melhor!
 Ah, ah! no se envergonhe, meu querido. Eu no sou de luxos. Sou tia Matilde, fao parte do Pantanal! No se esquea!
Mesmo de longe dava para perceber a pele de seu rosto esticada por boas operaes plsticas. Tia Matilde fazia questo de manter como nova sua velha pele, como mantinha novo o velho Cadillac.
Tia Matilde! A tia de Crnio. Era isso! Uma fazendeira riqussima e poderosa. Ela poderia ajud-lo. Talvez fosse a nica pessoa, em todo o Pantanal, que poderia ajudar Calu naquele momento.

* * *
Uma janela estava entreaberta. Calu espiou. Era um quarto vazio. Saltou rapidamente a janela, fechou-a por dentro e foi at a porta. Abriu uma fresta mnima.
Tia Matilde surgia no comeo do corredor e estendia uma gorjeta para o empregado que carregara sua valise cor-de-rosa.
Calu contou mentalmente 30 segundos, para dar tempo de o empregado afastar-se. Atravessou o corredor e bateu levemente na porta do melhor apartamento daquele hotelzinho.
Empurrou a porta logo que ouviu a chave girar do outro lado e entrou, sem pedir licena.
 Por favor, tia Matilde! No grite. No se assuste. Sou amigo de Crnio!
Sentada na cama, tia Matilde ouviu atentamente. Tinha passado a ltima semana empregando todo o seu poder para descobrir o sobrinho desaparecido. Estava informada de tudo. Sabia da morte de Bezerra e de suas ltimas palavras. S no tinha nenhuma pista de Crnio.
 Ele est vivo, tia Matilde. Acredite! Crnio est vivo, em algum lugar do Pantanal!
Tia Matilde voltou-se para o rapaz e beijou-o carinhosamente no rosto.
 Ns vamos encontr-lo, meu querido!
  claro, tia Matilde. Posso cham-la de tia?
 Per que no? Todos chamam...
 H um caminho a seguir, tia Matilde. Esse caminho  o do Senador. Precisamos descobrir o que ele pretende fazer com Miguel. Tenho certeza que todas as respostas esto com o Senador. Atravs dele chegaremos ao Crnio. Acho que atravs dele teremos respostas a todas as nossas perguntas...
Tia Matilde levantou-se. Parecia disposta como nunca. Era aquela mulher cuja alegria e excentricidade tinham feito fama no Pantanal.
  isso, meu querido. Vamos  luta! Para que serve o dinheiro?
Pediu uma linha  portaria e ps-se a dar ordens por telefone.

* * *
Uma hora depois, um telefonema trouxe as informaes que os dois esperavam. Miguel estava "hospedado" no casaro do Senador e uma expedio deveria subir o rio Taquari naquela madrugada. Miguel iria junto.
Calu entendeu o poder que tinha aquela grande fazendeira. Ningum nem coisa alguma eram mistrios para tia Matilde. A mulher tinha seus jeitos de conseguir o que queria. Todos os jeitos que o dinheiro pode comprar.
 O que faremos, tia Matilde?
 Vamos seguir essa expedio, meu querido. No vamos perder o seu amigo de vista. Nem o Senador...
 Segui-los? Mas como?
 Pelo ar, meu querido. Meu aviozinho est aqui, em Nhecolndia. Vamos voar atrs deles!



15  Na trilha do Pequeno Polegar

 

Crnio s conseguia ver, de relance, sombras passageiras como flashes fotogrficos cada vez que um dos velhos Ta-pit passava por uma rstia do luar que se infiltrava por entre as rvores. Eram sombras medonhas, cobertas por assustadoras peles de jacar, com as bocarras escancaradas. Um grupo de demnios. Um pequeno exrcito de fantasmas silenciosos, determinados. Guiavam-se na escurido, por entre as rvores, como se fosse dia.
A sombra mais velha avanava  frente, como um jovem guerreiro. Robson, com uma zagaia curta nas mos, seguia quase colado ao bisav.
O gnio dos Karas tropeava, chocava-se contra os ramos mais baixos, enredava-se nos cips. Mas sua determinao no diminua.
"Magri! Me espere. J estou indo! J estou indo!"
Um trompao maior, e uma queda. Ao seu lado, um brao forte ergueu-o.
Sob a fraca luz da lua, a alvura de dois olhos, arregalados pelo dio e pela anteviso do sangue de brancos a derramar, fixou-se por um momento naquele garoto para quem a floresta era uma ameaa e no uma salvao. No meio da noite era o rosto de um demnio que parecia estar sendo vomitado por um surio infernal.
Pacaman empurrou-o, e Crnio seguiu na trilha daqueles fantasmas de pesadelo.

* * *
O antigo mas reluzente Cadillac cor-de-rosa entrou na pista do pequeno aeroporto particular guinchando os pneus e estacionou ao lado do avio. Calu esfregou os olhos. Era um enorme avio cor-de-rosa! Um par perfeito para o Cadillac.
O rapaz estranhou a cor e estranhou ver ali, em pleno Pantanal, um C-47, uma relquia da 2.a Guerra. A pintura rosa-choque era novinha, como parecia ser o C-47, to bem conservado, com seu prefixo PT-MSB pintado em preto.
 Gostou do aviozinho, meu querido?  sorriu tia Matilde.  Isso sim  que  avio! No  como essas latinhas de hoje em dia, que mais parecem brinquedos. Naquele tempo, sim,  que se faziam mquinas para durar. Voc vai ver l em cima. Voc vai ver do que o meu aviozinho  capaz! No , Pepino?
S neste momento Calu reparou no piloto. Pepino. Um sobrevivente da prpria guerra, como o avio, e que trazia em cada ruga uma lembrana do tempo "em que se faziam mquinas para durar". Um talo-americano calado, sempre de olhos baixos, metido num bluso de couro to desgastado pelo uso quanto sua cara.
Embarcaram.
Se a preocupao no fosse tanta, Calu no poderia deixar de rir. Todo o interior do C-47 estava decorado em rosa, com veludos, cetins, tafets, cortinas, mveis antigos, vasos floridos e um fofssimo diva da cor das flores. Tudo era cor-de-rosa, tudo era fofo, como o quarto de uma madame do sculo 19. E a tal "madame" estava ao seu lado.
Calu sentiu-se em uma sala de visitas da av de algum e no a bordo de um avio que, no passado, devia ter soltado toneladas de bombas na Europa e no Pacfico.
Ainda no amanhecera quando as hlices comearam a girar.


***
Andrade no conseguia impedir que as lgrimas corressem fartas por suas bochechas. Na escurido, espremido na casita de bambu, deixou-se consolar por Chumbinho, como se fosse uma criana grande, gorda e careca.
 Nunca! Eu nunca deveria ter permitido que vocs viessem para c! Magri! Minha filhinha! Se o Centurio tocar em um s fio do cabelo de Magri, eu juro... Ah! eu juro que vou arrancar o fgado daquele canalha, nem que seja a ltima coisa que...
Chumbinho apertou fortemente a mo do amigo.
 Controle-se, Andrade, por favor! Voc no conhece direito a Magri...
 Eu adoro aquela menina!
 Mas no conhece direito. Pode deixar que ela mesma arranca o fgado do Centurio. Ele no tem idia do problema em que se meteu!
 Magri... Crnio! Onde est voc, menino? Por que se meteu nesta histria de horror?
Chumbinho abraou o amigo. Juntos, naquela gaiola escura, os dois estavam abandonados  prpria sorte.

***
Em Otlia, balanando-se nas guas calmas do rio Taquari, havia nada menos que dez voadeiras, todas iguais,  espera do Senador e de Miguel. Mais de quarenta homens, com armas modernas, mochilas e um aparelhamento porttil de rdio.
 Vamos subir o rio, devagar  comandou o Senador.  Todo mundo de olho nas margens. Procurem por qualquer marca ou objeto que possa ter sido deixado por algum, como um sinal. Nada deve ser desprezado.
De p, na proa, a figura imensa do Senador parecia desequilibrar a primeira lancha. Miguel ocupou a proa da voadeira seguinte, e o homem que estava no leme manobrou-a para a esquerda, de modo que, lado a lado, as duas embarcaes liderassem a expedio.
Dez motores de 25 Hp roncaram ao mesmo tempo. O lder dos Karas estava em ao. Havia uma esperana.
"Chumbinho... Andrade... Magri... Eu vou encontrar as suas pistas, minha querida Pequeno Polegar... Eu vou salvar voc, meu amor..."
Na primeira curva, porm, duas outras voadeiras, atravessadas no rio, impediam a passagem da expedio. Na proa da primeira, um homem de bigode sorria.

***
O Centurio empurrou-a brutalmente para dentro da barraca. Magri rolou, chocando-se com a armao e fazendo balanar o lampio a gs pendurado em um dos ferros.
 Que bela chica! Fuiste um regalo que los cielos me han entrego. Creo que los dioses estn preocupados com la solitud dei Centurin...
O bandido pegou uma corda de nilon e abaixou-se ao lado da garota. Habilmente amarrou-lhe as mos s costas.
 Para que no penses em fugir. De nada adiantaria, verdad? Adonde iria una chiquita como tu, no meio de Ia noche, en ei Pantanal? Tienes miedo de Ias cobras, chiquita? No Ias tiemas. El Centurin est ac, para proteger-te...
Como se fosse capaz de um carinho, a mo amarela de sarro de cigarro do Centurio tocou a face delicada de Magri...

***
 Bom dia, Senador! Saindo para pescar?
Ainda estava escuro, mas as primeiras luzes do dia j podiam ser percebidas. Era como se a luz tivesse cheiro, ao amanhecer. Para Miguel, as sensaes confundiam-se. Tudo parecia impregnado do perfume de Magri.
 Bom dia, tenente  respondeu o Senador.  Parece um bom dia para pescar. Acho que vai dar para pegar peixe grande hoje...
O rio sobe para um lado s, no , Senador? Por isso acho que vamos para o mesmo lado...
 O rio  pblico, tenente...
As duas chalanas manobraram e juntaram-se ao grupo, uma de cada lado. Mais dez homens. Todos fortemente armados.
O Senador no parecia muito feliz com aquela companhia.
* * *
O C-47 voava alto.
 Como vamos localizar Miguel desta altura, tia Matilde?
 No se preocupe, meu querido. O importante  que eles, l debaixo, no nos localizem. O que haveria de pensar o Senador se visse meu aviozinho sobrevoando o rio o tempo todo? Nada disso. Temos um aparelhinho aqui que vai resolver o problema.
Tia Matilde abaixou-se e fez correr uma tampa no cho do aparelho. Uma vigia de vidro blindado mostrava o Pantanal na glria do amanhecer. Encaixada na borda da abertura, uma aparelhagem sofisticada, unindo mquina fotogrfica e luneta eletrnica.
A tia de Crnio colou um olho  luneta e ajustou o aparelho.
 Veja, meu querido.  como se estivssemos a apenas cem metros de altura.
Calu ocupou o lugar da tia. A luneta estava focalizada sobre o rio Taquari, sobre um grupo de lanchas. Era quase possvel reconhecer os ocupantes.
 Viu? Ns podemos seguir at uma mosca! Mas eles, l embaixo, nem vo desconfiar.  um brinquedo adorvel, do tempo da guerra.
 Puxa! j existiam aparelhos como este na 2.a Guerra?
 2.a Guerra? Que nada! Esse aparelhinho  da guerra do Vietn!

***
 Mais devagar  pediu Miguel ao homem do leme.  O que  aquilo?
O homem manobrou a lancha e aproximou-se ainda mais da margem. O lder dos Karas pulou rapidamente para terra e correu em direo a algo que s ele percebera. Algo vermelho, balanando ao sabor da brisa.
 Senador! Encontrei!  o leno de Magri!

***
O C-47 voava em crculos e o sol projetava para dentro o reflexo rosa-choque da fuselagem. Tinham muito tempo. L embaixo, a expedio arrastava-se pelo rio.
 Bebe alguma coisa, meu querido?
Tia Matilde abriu a geladeira cor-de-rosa. Calu acertou a limonada que ela lhe oferecia. Para si mesma serviu-se de uma farta dose de whisky, com muito gelo.
 Ah, esse calor do Pantanal! J estava desacostumada ao calor brasileiro...
 A senhora  americana, no ?
 Nada! Sou brasileira da gema, meu querido. Vivi muito tempo nos Estados Unidos, quando estava casada com Vitrio. Pobre Vitrio! Me deixou  maior rede de restaurantes de comida italiana. Uma herana de macarro! O melhor macarro do mundo! Ah, ah!  graas a essa macarronada toda que eu pude voltar para o Brasil e criar gado aqui neste paraso de sonhos. Agora, Nova Iorque s de visita!
Calu deixou a tia falar de suas saudades e de seu sucesso como fazendeira no Pantanal. Aos poucos, embalada pelo whisky, tia Matilde lembrou-se do sobrinho desaparecido.
 Pobre menino! Eu estava to contente em receb-lo... S o vi desmaiadinho, coitado...
 Desmaiado?! Como assim?
 Bem, meu querido, eu no queria contar. Mas, naquele dia, meu sobrinho foi confundido com algum traficante de cocana e acabou ferido. Levemente, mas precisou ficar no hospital, enquanto eu saa em um desses jatinhos modernos em busca do meu mecnico, porque este valente C-47 cismou de encrencar. E, na minha ausncia, o Senador foi mais esperto...
Tia Matilde entornou o fim do copo de whisky e continuou.
 A responsabilidade pelo desaparecimento do meu sobrinho  do Senador. Ah, isso ! Levou Crnio para a fazenda dele e, depois disso, s ouvimos falar dele nas ltimas palavras do pobre piloto comido pelas piranhas...
O Senador tivera Crnio nas mos. Depois, fora a vez de Calu. Agora era Miguel quem estava em seu poder. Calu teve vontade de dizer que a responsabilidade por tudo de ruim que estava acontecendo no Pantanal era daquele grandalho. Mas de que adiantava falar? Aquela era a hora de agir...
Tia Matilde recostou-se na ampla poltrona cor-de-rosa.
 Por isso fiz questo de organizar eu mesma as buscas do meu sobrinho. Aqui, a polcia  muito desaparelhada, meu querido. Tive de botar todos os meus empregados, todos os meus amigos, nessa procura. Ningum deu um passo sem minha ordem. Mas, at agora, nada... Coitado do meu menino! Coitadinho...
O cansao de uma semana de buscas, a noite mal dormida e o whisky, quela hora da manh, fizeram seu efeito. Tia Matilde soltou o copo no cho acarpetado do avio e adormeceu.

***
O sofisticado aparelhamento de rdio estava sintonizado em um programa sertanejo. Magri estranhou que, entre uma msica e outra, entre um anncio e outro, o locutor viesse com uma fala que parecia totalmente deslocada:
 Ateno, pessoal! O Taquari t cheio de piranhas!
O Centurio soltou uma gargalhada que encheu toda a barraca com seu hlito ftido.
 Ah, essos coureiros se defendem! Sabes o que oiste? Es um cdigo. El locutor est avisando a sus cumpadres que la policia anda por ei Taquari. Ac es asi. Todos sabem se defender, chiquita!
Pegou uma garrafa de pinga em uma sacola.
 Pero devemos olvidar los problemas dei Pantanal por ahora, chiquita. Haremos una fiesta! Una fiestita antesl Ah, ah!
Colou o gargalo  boca, tomando um grande gole e deixando a cachaa escorrer pelo queixo. Olhos vermelhos, arrotou e estendeu a garrafa para a menina.
 Quieres um golito? Bebes, chiquita?

***
Coruja no pia ao amanhecer. Isso Chumbinho sabia. E no precisou de muito tempo para entender o que a "coruja" queria dizer com aqueles piados.
 Um longo, um curto, um longo... um curto, um longo... um curto, um longo, um curto... um curto, um longo... trs curtos! Karas! Mas quem ser que...
Na escurido da casita, Andrade no entendeu o que estava acontecendo.
 O que voc est falando, Chumbinho? Ficou maluco?
 Fique quieto, Andrade! Deixe eu ouvir a coruja!
 Coruja!? Mas...
 Quieto! Espere... um longo, um curto, um longo, um curto... um curto, um longo, um curto... um curto, um longo... um longo, um curto... dois curtos... trs longos... Crnio!! Crnio est vivo!
 Chumbinho, voc est delirando?
 Andrade, Crnio est vivo! Est l fora! Esses pios de coruja esto em Cdigo Morse!
 Morse? Como eu no percebi?
 L esto os piados de novo. Oua! Um longo... um curto... um longo, um curto... quatro curtos... trs longos...
No fim da mensagem, Andrade traduziu:
 "Tenho gente comigo. Vamos libertar vocs..." Chumbinho abraou, feliz, o amigo detetive.
 Crnio! E a gente que pretendia salv-lo. Agora ele  que aparece para nos libertar!

***
Magri teve de se conter para no chorar de alegria.
Um novo cdigo sobrepunha-se ao cdigo dos bandidos, do programa de rdio. E foi como um coro de anjos. A coruja piava em Morse! Crnio estava vivo! E viera libert-la!
No estava em condies de responder, mas nem precisava. Ouviu o pio de outra "coruja". Era Chumbinho. Crnio estava sendo informado de tudo o que acontecia no acampamento dos bandidos.
Resolveu usar todo o charme de que era capaz.
 Vai beber sozinho, Centurio? No estou convidada para a festa?
O bandido olhou divertido para a menina.
 La fiesta? Pero tu eres la fiesta! Ah, ah, ah!
 Mas como vou participar, amarrada assim?
 Amarrada asi, estoy ms tranqilo...
Magri exibiu um daqueles seus sorrisos de derreter bronze.
 S que, desamarrada, posso fazer coisas que vo deixar voc de boca aberta...
O Centurio arreganhou a boca, exibindo seus cacos de dentes. Sacou a faca e aproximou-se de Magri. Nesse instante, o moderno aparelhamento de rdio interrompeu automaticamente a programao sertaneja e passou a emitir uma mensagem.
 Al, al... Chamando Centurio... O Ente, chamando Centurio...  urgente... responda ao chamado... Capito?... Urgentssimo,..
O Centurio guardou novamente a faca e ajoelhou-se ao lado do aparelho de rdio.
 Um segundito, chiquita. Nuestra fiesta comear em um segundo, no ms...
Passou a chave do aparelho para a posio de transmitir, e falou:
 Al... Centurin hablando... Estoy en Ia escuta...

***
 Veja, Senador! Outro pedao da blusa de Magri!
Miguel seguia  frente apressado, mas com todos os sentidos ligados em busca de cada marca que a nica menina dos Karas havia deixado para gui-lo.
Duas ordens, do Senador e do tenente de bigode, faziam aqueles homens avanarem em silncio, carregando suas armas e o rdio de campanha.
"J estou chegando, Magri! Minha querida! Meu Pequeno Polegar! Me espere. J estou chegando!"




16 A batalha do Pantanal

 

Tia Matilde dormia. Para que acord-la? Estava exausta, e a expedio do Senador avanava to lentamente em relao ao C-47, que um cochilo no alteraria em nada a perseguio.
Calu olhou novamente pela luneta eletrnica. A expedio desembarcara e agora tornava-se um pouco mais difcil segui-los. Difcil mas no impossvel. De vez em quando, aquela longa fila de homens deixava-se ver em meio s rvores.
Resolveu fazer uma visita  cabine. Deveria ser divertido acompanhar aquele velho piloto em ao.
Pepino falava ao microfone quando Calu abriu a porta da cabine.
 Al... responda, Centurio... Capito?...  urgentssimo...
No foi possvel ouvir a resposta do tal Centurio, fosse l quem fosse, pois ela passava diretamente para os fones de ouvido de Pepino.
 Estamos em apuros! Capito? O Ente est indo para a com um garoto metido a esperto... Hein? No. O Ente no pode se expor. Tem de agir com a maior naturalidade.
Qualquer descuido e o Ente ser desmascarado... Oua o que o Ente planejou: vamos libertar os prisioneiros que esto em seu poder... Fique calado, estpido! Ser uma libertao simulada. Eu vou sobrevoar o acampamento e metralh-lo. Em seguida vou pousar e sair atirando. Vocs devem simular alguma resistncia, sem dar na vista, a mais real possvel. A eu liberto os prisioneiros e levantamos vo. Com todos eles juntos, o Ente no correr mais perigo... Como? Vou direto para o mar, e os garotinhos mais o gordo detetive vo dar um belo mergulho... E da? Da vocs abandonam o acampamento e se dispersam...
Branco como um lenol, Calu fechou silenciosamente a porta da cabine. At o piloto de tia Matilde era um homem do maldito Ente!
Pepino havia falado nos "garotinhos e no gordo detetive"... Magri, Chumbinho e Andrade! S poderiam ser eles! Ento eles tinham sido aprisionados pelos bandidos? E agora? O Ente no podia expor-se a ser desmascarado numa ao aberta, da qual poderia sobrar algum que quebraria o segredo de sua identidade. Sua ao teria de ser segura... e fulminante! Se o plano desse certo, ele prprio, Miguel, Chumbinho, Magri e Andrade estariam presos no avio. E, a, nada mais haveria a fazer... Um mergulho no mar! A mil metros de altura, e sem pra-quedas!
Calu controlou-se. Sentou-se calmamente na poltrona e tomou uma deciso. Tinha um plano. Era arriscado, mas a nica chance. Muitas vidas, incluindo a sua, estavam nas mos dele.
Nada poderia ser feito naquele momento. A hora de agir chegaria. Esper-la era como se espera nos bastidores o momento de entrar em cena em uma estria de teatro. E, nessas horas, Calu sabia controlar os nervos como ningum.
Na outra poltrona, tia Matilde comeou a roncar.

***
Magri no conseguira saber o que o Centurio tinha ouvido pelo rdio, pois o bandido pusera os fones de ouvido, ficando com o som s para si.
Agora o bandido desligava o aparelho e parecia preocupado. Passou a mo vigorosamente pelo cabelo imundo, como se pretendesse livrar-se da preocupao.
 Bueno. Si ei Ente dice que v a dar cierto, es que v a dar cierto.
Quando olhou novamente para a garota, trazia um sorriso macabro.
 Tenemos tiempo para una fiestita rpida, chica... Una fiesta de despedida...
Com um golpe da faca cortou a corda de nilon. Magri sorriu tentadoramente.
 E a bebida? No vai oferecer? O Centurio estendeu-lhe a garrafa.
 Quieres?
 Voc primeiro...
No momento em que o Centurio foi beber, Magri, com um golpe violento no fundo da garrafa, enfiou-lhe o gargalo violentamente garganta adentro. Ao mesmo tempo, um chute certeiro no meio das pernas fez o bandido curvar-se de dor.
 Aaaagh...  gemeu o engasgado, enquanto a pinga descia-lhe pela goela.
A menina amarrou o bandido com a corda de nilon. Pegou a chave da casita e espiou cautelosamente pra fora da barraca. Ningum  vista. Pelo jeito, os bandidos dormiam. Saiu silenciosa como uma gata.
Correndo abaixada como um soldado em combate, Magri chegou  casita. Enquanto a menina destrancava o cadeado, Chumbinho sorriu triunfante, olhando para a expresso feliz, mas apalermada do detetive. O pobre amigo ainda no sabia do que os Karas eram capazes...
Como previra Chumbinho, Magri tinha "arrancado o fgado" do Centurio.

***
Pepino acionou o piloto automtico e apareceu na porta da cabine.
 Tia Matilde... Desculpe, mas acabei de receber uma mensagem pelo rdio...
"Isso  verdade"  pensou Calu.
A velha senhora acordou imediatamente.
 Hein? O que foi?
 Recebi uma mensagem de nossos amigos, tia Matilde. Eles descobriram para onde vai o grupo do Senador com o garoto. Parece que vo para um acampamento de contrabandistas e coureiros, capito? Nesse acampamento h trs prisioneiros j. Uma garota, um menino e um homem gordo...
"Isso tambm  verdade..."  pensou Calu, rindo por dentro por ter conhecimento da trama. Dela, ele s no tinha o controle.
Tia Matilde arregalou os olhos para Calu.
 Uma garota, um... mas podem ser seus amigos, meu querido!
Representar era com Calu. Naquele momento, sua expresso de espanto e revolta deveria ter sido fotografada.
 So eles, tia Matilde! S podem ser eles!
 My God!  exclamou a senhora, esquecendo-se do portugus. O que vamos fazer agora?
Pepino props o plano do terrvel Ente:
 Posso sugerir um ataque areo, tia Matilde? A velha quase pulou na poltrona.
 Um ataque areo? Voc andou bebendo, Pepino?
 Scusi, signora, mas eu fui um piloto de guerra, lembra-se?
 Isso foi h quarenta anos! E este tambm no  mais um avio de guerra h quarenta anos!  um avio civil, desarmado!
 Scusi ancora, mas no . Sempre mantenho as metralhadoras carregadas e em perfeitas condies. Sabe? Io no posso dimenticare la guerra...
A tia pensou um pouco. As novidades, de repente, pareciam demais at para uma pessoa como ela.
 Mas ns s somos trs! Como vamos pousar, enfrentar os contrabandistas e ainda libertar os prisioneiros?
 Tambm temos armas de mo a bordo, tia Matilde... Scusi,  que as minhas lembranas da guerra...
 Esquea essa guerra!  comandou a velha, que parecia ter tomado uma deciso.  Temos uma outra pela frente. Mostre as tais armas!
Pepino abriu um painel disfarado no forro cor-de-rosa que cobria o interior do avio. Vrias armas modernas estavam enfileiradas e presas  fuselagem.
 Est bem.  uma loucura, mas eu sempre fui de topar todas as loucuras!
Tia Matilde pegou um fuzil-metralhadora M-16.
 Me diga como se usa isso, Pepino.

* * *
 Veja, tenente!  apontou um dos homens que tinham se incorporado  expedio do Senador.  O avio de tia Matilde!
Do alto, o enorme pssaro rosa-choque parecia despencar dos cus.
Passou rasante sobre eles e seguiu em frente.
Miguel acompanhou o avio e viu-o sumir sobre as rvores. Olhou para o Senador. Ia dizer qualquer coisa, mas desistiu. Falou para si mesmo: "Mike Sierrabrava...."
Nesse momento, todos ouviram o matraquear brutal das metralhadoras.

***
Acordados por aquele pssaro rosa-choque a vomitar-lhes fogo em cima, os homens do Centurio saram atirando pra valer. O chefe, amarrado por Magri, no pudera transmitir-lhes as ordens da farsa combinada com Pepino. Mas nem Pepino nem Calu sabiam disso. A resistncia devia apenas estar sendo bem simulada, para no dar na vista.
Com a habilidade de um s da aviao, o velho piloto pousou o C-47.
 Magri! Chumbinho! Andrade!  gritou Calu, tentando suplantar o matraquear das metralhadoras.  Sou eu, Calu! Onde esto vocs?
Agachada na porta do avio, tia Matilde tentava controlar o M-16, que pulava de sua mo a cada tiro. Pepino tinha desembarcado e atirava do cho, a esmo, fazendo saltar pequenos galhos das rvores acima das barracas.
Dois bandidos correram para a barraca do Centurio, em busca de alguma ordem que os orientasse. L estava ele, amarrado, dobrado de dor, com a boca machucada.
 Estpidos! Por que demoraram tanto?
 Centurio! Estamos sendo ataca...
 Es claro que estamos sendo atacados, idiotas! No atirem!
 Como!?
 Quiero decir... atirem! Pero no acertem!
 No estamos entendendo...
 Errem los tiros! Errar ustedes sabem mucho bin! Vamos!

***
Deitado no cho, ao lado de Magri e Chumbinho, Andrade viu que era possvel correr sob a proteo da vegetao baixa que ladeava a pista at o avio.
 Crnio!  gritou Chumbinho.  Vamos para o avio!
Mesmo com o peso das banhas, Andrade corria quase tanto quanto os garotos. As balas passavam zunindo por sobre o C-47 quando os trs chegaram. O rosto de Calu, sorrindo e com a mo estendida para ajud-los a subir, era a viso mais linda do mundo!
Mas o corao do detetive pulou mesmo de alegria quando uma outra figura destacou-se do mato e correu para eles.
 Crnio!
Tia Matilde, com o cano do M-16 apoiado na fuselagem, atirava incompetentemente, para "dar cobertura", enquanto o detetive e os trs meninos subiam, ajudados por Calu.
 Suba, Pepino!  berrou a tia, quando as dificuldades de Andrade foram superadas e o gordo detetive conseguiu embarcar.
Era o momento de Calu. Ele afastou a tia e trancou a porta do avio.
 Querido, o que est fazendo? Pepino ainda no...
 Desculpe, tia Matilde  explicou Calu, com o rosto afogueado pela excitao.  Pepino  um dos bandidos.  um traidor. Eu ouvi uma conversa dele pelo rdio com o tal Centurio.
 Era com esse piloto que o Centurio estava falando?  perguntou Magri.  Eu ouvi a conversa!
 Foi esse canalha que matou o professor Elias...  revelou Crnio.
Magri olhou para o gnio dos Karas, como se dissesse: "Voc estava certo, como sempre, meu querido..."
 Os assassinos combinaram sair daqui com todos ns, antes que o Ente chegasse  continuou Calu.  amos ser jogados no mar!
Tia Matilde perdeu a fala. Aquela velhinha valente deixou que o cansao daquilo tudo a dominasse. Parecia frgil, e abraou o sobrinho.
 Meu querido! Por que tanta confuso, justo quando voc resolveu visitar sua velha tia?
L fora, os tiros cessaram. Os bandidos no atirariam mais. Isso de nada adiantaria porque as vigias eram de vidro blindado.
Um breve silncio dentro do avio. Todos olhavam para Crnio, abraado  tia, como se nenhum deles acreditasse que aquele encontro fosse possvel. A primeira a quebrar a tenso foi Magri.
 Crnio!
 Magri!
Crnio trocou o abrao de tia Matilde pelo de Magri. Abraaram-se com o corao apertado de saudade, de dedicao, de amor. Chumbinho e Calu juntaram-se ao abrao, e Andrade tentou envolver a todos, chorando de alegria, sem nenhuma vergonha. Estavam todos reunidos! Ele tinha aqueles meninos queridos novamente junto de si!
 E Miguel?
Calu levantou a cabea. A alegria do reencontro tinha desaparecido.
 No h nada que possamos fazer agora. Miguel est nas mos do maldito Ente!
 O Ente?  espantou-se Chumbinho.  Voc descobriu quem  o Ente?
 Eu j sei quem ele ...
 Eu tambm...  juntou Crnio.  Mas isso de nada nos adianta, agora!
"Miguel!"  choramingou Magri, para si mesma.  "Meu amor... O que vo fazer com voc?"
Estavam protegidos dentro do avio, mas o C-47 se tornava tambm uma priso. Pelas vigias dava para ver Pepino, falando excitadamente com o Centurio.
 O que vamos fazer?  lembrou Andrade.  Como vamos sair daqui?
Os Karas se entreolharam. Era uma idia maluca. E foi Calu quem fez a proposta.
 Estamos num avio, no estamos? Ento vamos sair voando!
Tia Matilde riu alto.
 Ora, isso  impossvel, meu querido! Eu no sei pilotar...
 Nem eu...  lamentou Andrade.
 Mas Chumbinho sabe...
Aquela velha era bem ousada, mas no conseguia entender a maluquice daqueles garotos.
 O qu!? Este garotinho?
Calu colocou as duas mos nos ombros de Chumbinho.
 Voc no disse que j estava dominando perfeitamente os programas de computador feitos para treinamento dos pilotos da NASA, Chumbinho?
 Nunca perdi um vo, Calu.
Pelas vigias viram dois bandidos carregando uma caixa. Nela estava escrito "dinamite".
 E ento, Chumbinho?  insistiu Calu.   capaz de tirar essa banheira do cho?
 Como se fosse um jogo eletrnico?
 Como se fosse um jogo.
 Nunca perdi nenhum, pessoal. Vamos l!
Os dois adultos olharam um para o outro, completamente perdidos. Como impedir as loucuras daqueles cape-tinhas? Por outro lado, de que adiantava ficarem ali, esperando que o Centurio e Pepino explodissem o avio?
Chumbinho parecia minsculo sentado  frente dos controles. Examinou rapidamente o painel.
 Isto at parece brincadeira! Estou mais acostumado a pilotar um F-4 Phanton II...
Andrade quase engasgou.
 A pilotar o qu?!
 Ahn... quer dizer... a pilotar o simulador de vo do Phanton...
As duas hlices comearam a girar, e os bandidos perderam o rumo. Com uma banana de dinamite em cada mo, Pepino discutia com o Centurio. De repente, pareceu que tinham tomado alguma deciso. O Centurio deu uma ordem, e os bandidos com a caixa de dinamite correram para a cabeceira da pista.
 Eles vo dinamitar a pista!  alertou Magri.  Vo abrir uma cratera, e ns no vamos poder decolar!
 Ande com isso, Chumbinho!  apressou Crnio.
 Ainda no d. Ainda no temos presso suficiente! Era uma corrida de vida e morte. Na cabeceira da pista, o Centurio amarrava as bananas de dinamite e Pepino estendia um fio at o detonador. Do outro lado, os motores do C-47 roncavam, ganhando fora, acelerados por um menino.
 Vamos l, pessoal!  gritou Chumbinho, alegremente, como se fossem iniciar uma louca viagem na montanha russa de um parque de diverses.
Mo esquerda no manche, Chumbinho empurrou lentamente o acelerador com a direita, sem tirar os olhos da pista, de onde os bandidos corriam, protegendo-se atrs dos arbustos.
 No vai dar!  esgoelou-se tia Matilde.  Eles vo explodir a dinamite quando estivermos passando. Vo nos mandar pelos ares!
O C-47 avanou suavemente. Chumbinho checou o painel. Ainda no havia condies para arremeter.
 Mais alguns segundos e talvez...
 Vamos l, Chumbinho!
 Grite com o avio! No grite comigo, Magri. Sei o que estou fazendo!
 Ei! O que est havendo l?
Somente Crnio conhecia os atores da tragdia que comeava a se desenrolar l fora diante deles.
Com o grito de um demnio, uma figura alta e negra, meio coberta por couros de jacar, correu para cima do Centurio, que estava com as duas mos no detonador.
Atrs do gigante, um grupo endoidecido de velhos ndios avanava gritando, liderado pelo mais velho deles e por um ndio de cala, camiseta e culos escuros.
O Centurio largou o detonador e levantou a cabea.
O mostrador, no painel, indicou que tudo estava pronto para a decolagem. Chumbinho acelerou ao mximo, em direo  batalha.
O gigante ergueu a lana a cinco passos do Centurio, mas a metralhadora j estava apontada. A rajada pegou Pacaman no peito, jogando-o para trs, praticamente cortado em dois.
O velho Peor correu. Agarrou o fio do detonador e arrancou-o.
O Centurio girou o corpo e mandou fogo em direo ao velho. Peor caiu.
Ouviu-se o grito de um louco! O ndio de culos escuros jogou-se sobre o Centurio e arrancou-lhe a metralhadora. Por um segundo, os dois se encararam. O Centurio sacou a faca e jogou-se sobre o ndio.
O C-47 levantou os pneus do cho, passando por cima daquele espetculo no momento em que Robson aparava a investida do Centurio com a zagaia, como se apara o bote de uma ona.
Do alto, dava para ver a ponta da zagaia saindo rubra de sangue pelas costas do Centurio. Robson vingara o professor Elias. Era o melhor guia do Pantanal. E no pretendia cobrar caro pelo servio.
1 Morte pantaneira
 

As armas de todos aqueles homens j no eram necessrias quando Miguel chegou ao aeroporto clandestino, nem cinco minutos depois que viram o avio rosa-choque distanciar-se. No havia mais nenhum bandido vivo. Varados por flechas e lanas, corpos espalhavam-se por todos os lados.
O Senador e o tenente juntaram-se ao lder dos Karas.
 ndios!  espantou-se o tenente.
 Mas no foram ndios que fugiram naquele avio!  disse Miguel.  Meus amigos devem estar l. Algum os levou!
 Inferno!  praguejou o tenente.  Vamos demorar um tempo para voltar s lanchas!
 Ei, voc!  chamou o Senador.  Venha aqui com o rdio!
O Senador abaixou-se ao lado do aparelho.
 Deixei um helicptero de sobreaviso. Estar aqui num instante!

***
 Chumbinho, voc  grande!  e Magri deu um beijo estalado na bochecha do pequeno piloto.
 Vivaaa! Viva Chumbinho!  gritaram Crnio e Calu.
 Voc...  gaguejou Andrade, enxugando a careca com o leno ... voc sabe mesmo pilotar essa coisa?
 At aqui tudo bem, no , Andrade?
 Foi isso o que disse o sujeito que caiu do vigsimo andar, ao passar pelo terceiro...
 Confie no Chumbinho, Andrade!  animou Calu.  Ele fez o avio decolar, no fez?
 , mas acontece que eu sempre tive medo de voar... Mesmo com pilotos profissionais... Ser que o Chumbinho vai saber pousar esta coisa?
 O pouso  capaz de dar certo  prometeu Chumbinho.  Eu no sei  pra que lado devo levar o avio...
Aquele era mesmo um problema grave. Como guiar-se em direo a algum aeroporto?
 O rdio!  sugeriu Magri.  Vamos tentar algum contato. De terra, algum pode nos guiar!
 Ei, vejam!  apontou Crnio.  L fora! Um pequenino ponto negro destacava-se no cu.
 Um helicptero!
Magri comeou a mexer nos controles do rdio de bordo.
 Al! Al! Algum nos escuta? Estamos num avio, perdidos no cu do Pantanal... Chumbinho, o que se diz nessas horas?
 No sei. Nunca falei com um computador...
 Nos filmes, eles falam S.O.S., ou "may-day"...
 Isso no vai adiantar nada...
Magri continuava mexendo no rdio. De repente, uma voz invadiu o alto-falante da cabine.
 "Al... Por favor, respondam.
A voz vinha do rdio no helicptero. Era a voz de Miguel.

***
No meio da mata, os Ta-pit carregavam o corpo ferido de Peor.
 Araguau!
O chamado de Peor era desnecessrio. O bisneto estava a seu lado.
 Araguau, chegou a minha hora de conhecer o Morena, onde tudo comeou. Vou ao encontro de Maira. Vou falar dos Ta-pit a Mavutsinn. Passei minha vida ao lado dos brancos, mas agora no quero morrer por ferimento de homem branco. Leve Peor para o corixo...
Nenhum dos Ta-pit discutiu o pedido de Peor.
O velho pareceu sentir o cheiro da gua. Recusou qualquer ajuda e se ps de p. De dentro dos couros tirou a bolsa que carregara a vida toda consigo.
 Aqui est, Araguau. O segredo Ta-pit. O segredo das Formigas-paradas. Aqui est o feitio que vai fazer com que nosso povo no desaparea. Com que nosso povo volte a caar livre no Pantanal. O feitio que vai derrotar os brancos. A guarda do segredo Ta-pit agora  sua, como foi de Peor. Adeus. Parto para o Morena.
O velho ndio caminhou sozinho para o corixo e entrou lentamente nas guas, at elas lhe cobrirem metade do peito. Seu ferimento j no sangrava mais. Tirou uma faca da cintura e ergueu os dois braos acima da cabea.
Na margem, os Ta-pit assistiam, sem um movimento.
Peor, com um golpe brusco, fez um corte profundo no brao. O sangue correu-lhe pelo rosto, desceu pelo pescoo, pelo peito e foi pingar na gua. Devagar, olhando para o Morena, o ndio centenrio mergulhou o brao no corixo.
Ningum desviou a vista quando as guas comearam a se revolver. Atradas pelo sangue, as piranhas vinham buscar o que restava de carne em Peor. O velho tinha escolhido uma morte pantaneira. A pior delas. Sem um grito, seu corpo se convulsionou, sacudido pelo turbilho de piranhas que o devoravam...
Do helicptero, Miguel passava as instrues do piloto do helicptero a Chumbinho.
 No se preocupe com os comandos, Miguel. Isso aqui  fcil demais. Meu problema  a navegao. Quero saber pra onde ir!
 Voc est indo muito bem, Kara! Por sorte tomou o rumo oeste. Vai dar para pousar em Corumb.
Ao lado do lder dos Karas, o Senador e o tenente no partilhavam do otimismo de Miguel.
A bordo do C-47, Andrade tentava lembrar-se de alguma orao que servisse para um momento como aquele.

* * *
As guas do corixo j estavam calmas novamente, Peor s continuaria existindo na lembrana daqueles velhos, em extino como os jacars. Os velhos cercaram Robson, cobrando-lhe uma atitude com a eloqncia de seu silncio.
Robson tomou uma deciso. Arrancou os culos escuros, a camiseta, e jogou-os no corixo. Diante dos velhos ndios desaparecia Robson e surgia Araguau.
Num ritual, Araguau comeou a abrir a velha bolsa, desenrolando os couros de jacar, camada por camada. Um objeto grosso, de forma retangular, amarelecido pelo tempo, revelou-se  vista de todos.
Um livro! Um livro, o smbolo da cultura dos brancos, ali surgia como o smbolo da esperana de eternidade para a cultura indgena, que nunca fora escrita! Um livro!
O guia ndio tremia, ao voltar-se para os seus:
 Ta-pit! Aqui est o segredo de Peor. Este  o segredo das Formigas-paradas!
Levantou o livro acima da cabea. Ele sabia ler. Na velha capa, semidestruda, ainda se podia decifrar: "O engenhoso fidalgo Dom Quixote de Ia Mancha".
Lgrimas correram pelo rosto do ndio, que tudo compreendia, enquanto explicava:
 Aqui esto as Formigas-paradas! Esto todas aqui. Elas nunca se movem. Nunca se movero. Mas os brancos movem o mundo com elas. Com elas, os brancos conquistam a terra do ndio. Os brancos vencem o ndio. Os brancos esmagam o ndio. O antepassado de Peor acreditou que o ndio poderia dominar um dia essa tremenda arma das Formigas-paradas. Acreditou que esse feitio dos brancos poderia ser empregado pelo ndio. Acreditou que as Formigas-paradas poderiam libertar o ndio!
Araguau no falava somente para os velhos Ta-pit. Falava para todo o Pantanal, para os papagaios e para as onas, para as piranhas e para os jacars.
 Os brancos usam o feitio das Formigas-paradas para escrever a histria do ndio. Assim, a histria do ndio passa a pertencer aos brancos. Eles roubam os espritos de nossos antepassados como roubam nossa terra. Porque o ndio no acredita na propriedade dos espritos, no acredita na propriedade das terras. Para o ndio, a terra  de todos. Para os brancos, tudo  s deles...
Araguau estava preparado para destruir uma esperana no corao dos Ta-pit. Mas estava disposto a oferecer-lhes outra.
 Se o ndio quiser dominar o segredo das Formigas-paradas, como os brancos, vai deixar de ser ndio. E no vai conseguir virar branco. "ndio que esquece a prpria lngua fica mudo!" Isso dizia Peor. E Araguau diz que ndio que esquece o esprito de seus antepassados desaparece. O feitio das Formigas-paradas no serve para o ndio. Ento o ndio no tem esperana? O ndio vai desaparecer? Vai desaparecer porque no tem poder, no tem armas, no tem escrita e no acredita na propriedade? Vai desaparecer do Pantanal? De toda parte?
Olhou um a um aqueles velhos. Eles, talvez, no estivessem entendendo. Mas haveriam de entender, com o tempo. Araguau passaria o resto da vida com eles, explicando a sua esperana. Araguau era o melhor guia do Pantanal, mas j estava cansado de guiar turistas brancos. Daquele momento em diante seria o guia do seu prprio povo.
 No! Araguau conhece outro segredo. Outro feitio, mais poderoso ainda. Esse segredo  a vida! Continuar vivos, vivendo como ndios,  nossa melhor forma de lutar.
Vivendo  que se resiste. Se resistirmos, nossas idias no se perdero. Sero roubadas pelo branco, mas faro parte das idias dos brancos. Modificaro as idias dos brancos. Ns sobreviveremos dentro dos brancos! Os brancos no conseguiro nos destruir porque, mortos, faremos parte deles. Os brancos ficaro grvidos de ns, para sempre! Essa ser a nossa vitria!
Com os braos para o alto, Araguau invocava o testemunho dos papagaios, guardies das ltimas palavras da lngua de seus antepassados.
Talvez "currupaco" seja uma palavra guaicuru, quem sabe?

18 Uma cano morre no mar
 

O operador da torre do aeroporto de Corumb no acreditava no que via. Um velho C-47 rosa-choque aproximava-se para o pouso, numa rota perfeita. E estava sendo pilotado por um garoto!
Carros de bombeiros, ambulncias e todo o pessoal disponvel estavam na pista, preparando-se para um grande acidente.
Com os flaps abaixados no ngulo exato, o trem de aterrissagem do C-47 tocou o asfalto. Foi um pouso perfeito. Os freios foram acionados na hora certa, e o bojudo avio taxiou normalmente, como se aquele pequeno piloto nunca tivesse feito outra coisa na vida!
O detetive respirou aliviado. J ia levantar-se quando Calu cochichou alguma coisa em seus ouvidos. Andrade pegou o fuzil M-16 e postou-se em ltimo lugar para o desembarque.
O helicptero pousou na grama, ao lado do avio.
Quando a porta do C-47 foi aberta, Miguel j estava  espera. Atrs dele, o Senador e o tenente, seguidos pelo pessoal de socorro, que cercava o avio.
Os empregados do aeroporto encostaram a escada de desembarque. Quando a carinha marota de Chumbinho apontou, a pequena multido hesitou por um instante. Depois prorrompeu em aplausos, como se o menino fosse um astro de msica popular.
Uma euforia descontrolada espalhava-se pela pista, quando Andrade interrompeu a alegria. Levantou o fuzil e apontou-o para o grandalho.
 Senador, o senhor est preso!
Como se tivesse havido uma combinao, o motor do helicptero foi cortado naquele momento. Todos silenciaram, sem compreender o absurdo de um desconhecido apontar uma arma para o homem mais respeitado do Pantanal.
A expresso do Senador no foi de surpresa. Nem to pouco de culpa. O Senador parecia mesmo era ofendido.
O tenente de bigode deu uma gargalhada:
 Ora... O senhor  o detetive Andrade, de So Paulo, no ? Mas que idia  essa de vir aqui, dar voz de priso logo ao Senador, o cidado mais conhecido de todo o Estado? Temos as nossas diferenas, mas o Senador ... bem, o Senador  o Senador!
Calu e Crnio ladeavam Andrade. Crnio falou primeiro.
 No. O Senador  tambm O Ente!
 E seu verdadeiro nome  Mike Sierrabrava!  acrescentou Calu.
O Senador nada disse. No esboou a menor defesa. Estava lvido, como um cavaleiro medieval que tivesse sido esbofeteado pela luva de um desafiante.
 Mike Sierrabrava?  espantou-se o tenente.  Que histria  essa? O Senador  o comandante das foras federais que combatem o crime aqui no Pantanal! Eu sou da polcia do Estado, pobre e mal aparelhada. Temos divergido, mas  porque cada um de nossos grupos quer chegar primeiro nessa corrida contra o crime. Eu e ele sabemos que nosso principal inimigo, por aqui,  o Ente. Por isso  um absurdo pensar que...
Crnio voltou-se para Calu:
 Como descobriu esse nome? Mike Sierrabrava?
 O piloto baleado que falou em voc, Ele disse tambm que o Ente  Mike Sierrabrava...
Magri, Chumbinho, Miguel e tia Matilde a tudo assistiam sem interferir. Um clima de tenso tomava conta de todos.
 Algum quer me explicar o que est acontecendo?  o tenente estava perdendo o bom humor.  Detetive Andrade! Explique-se ou baixe essa arma!
 No tenho nada a explicar. Se Crnio diz que o Senador  o Ente, ele deve estar certo!
 Deixe que eu explico!  apresentou-se Calu.  O Ente se esconde sob o mais perfeito disfarce, aqui no Pantanal. E que disfarce mais perfeito do que a pele do cidado mais respeitvel do Estado, no comando de uma operao montada para descobrir ele mesmo?
 Uma operao sediada em uma fazenda onde no h mulheres nem crianas!  acrescentou Crnio.  S homens. Jovens e treinados. Uma comunidade de bandidos do crime organizado!
 Nada disso, garoto!  replicou, o tenente.  Uma comunidade de soldados. De policiais!
 Descobrimos a verdadeira significao do nome do chefo  cortou Calu.  Ente.  a pronncia de ant, que quer dizer "formiga", em ingls. O crime organizado age acobertado pela lenda dos Formigas-paradas que...
Crnio impediu o amigo de continuar.
 No, Calu. O Ente nada tem a ver com os Formigas-paradas. Eu estive com eles. Eles so aquele grupo de velhos ndios que nos salvaram no acampamento do Centurio. Mas quanto ao resto voc est...
 Errado!
O grito pegou todos de surpresa, principalmente os acusadores.
Era Miguel.
O lder dos Karas avanou para o centro da roda, ficando entre o cano do fuzil empunhado por Andrade e o Senador.
 Sinto muito, Calu. Sinto muito, Crnio. Mas vocs esto errados.
 Errados? Mas como, Miguel? O Senador me prendeu, deu um jeito para afastar Crnio das investigaes...
 Foi na fazenda do Senador que a caixa de slides do professor Elias desapareceu. Ele sabia que eu estava na pista certa!
 Nada disso tem a menor importncia. Nada disso prova nada. No Pantanal, o Ente  sinnimo do ouro da Mfia. Nada poderemos provar enquanto no mostrarmos onde est esse ouro.
 Isso todos ns queremos saber, garoto!
 Certo, tenente. Mas isso eu sei!
 Como?!  at Andrade se espantou.  Desde quando voc sabe?
 Acabei de encontrar a ltima pea do quebra-cabea, nesta manh, quando este avio colorido passou por cima de nossas cabeas. Temos de raciocinar sobre as palavras do piloto assassinado.
Crnio estava queimando por dentro. No podia admitir ser acusado de um raciocnio errado na frente de todo mundo.
 Bezerra viu os slides do professor Elias. Eu o fiz descrev-los, sob hipnose. Elias fotografou um avio dos contrabandistas, l naquele aeroporto clandestino, provavelmente sendo carregado com muambas. Ele falou do avio, brilhando ao sol... sol vermelho... sol amarelo... Ningum percebe que avio  esse?  o Tucano amarelo do
Senador! Elias fotografou o avio do Senador, no aeroporto clandestino, carregando as muambas da Mfia!
Miguel sorriu de leve. Sua teoria se confirmava.
 Ele falou em Mike Sierrabrava l no acampamento dos bandidos?
 No. Ele no falou nada disso.
 Ento podemos supor que esta foi uma nova informao que o piloto obteve depois que se separou de voc. Certamente durante o tempo em que flutuava naquele barco, esperando a morte. Ele viu alguma coisa. E eu sei o que ele viu.
Andrade estava sendo contagiado pela impacincia reinante.
 Fale logo, Miguel. Isso j est indo longe demais...
Miguel prosseguiu, sem se apressar.
 Todos esto se esquecendo de um detalhe muito importante. Bezerra era um piloto.
 E da?
 E da que existe uma linguagem internacional entre os pilotos, na hora de citar iniciais, para que no haja confuso nos contatos pelo rdio. Eles no dizem "a", dizem "alfa". No dizem "z", dizem "zulu". No dizem "h", dizem "hotel". No dizem "m", dizem "mike"!
Todos olharam o avio rosa-choque. Pintado em preto sobre o rosa da fuselagem, o prefixo PT-MSB!
 A est!  Miguel mostrava-se triunfante.  Papa-tango-mike-sierra-bravo, e no Mike Sierrabrava! O piloto Bezerra reconheceu este avio em sua ltima viagem pelo rio Taquari. Era o mesmo avio que o professor Elias fotografou! No era o avio amarelo, era o avio cor-de-rosa!
 O meu avio?  protestou tia Matilde.  O que o meu avio tem a ver com tudo isso?
 Seu avio estava l, na semana santa, no aeroporto clandestino, brilhando ao sol! Sol amarelo... sol vermelho... Sol rosa-choque!
 Que besteira, rapaz!  interferiu o tenente.  No force a barra, bancando o detetivezinho nas horas vagas! O que a cor do avio tem a ver com isso! Como disse o Crnio, poderia at ser o avio do Senador. Um Tucano
amarelo como gema de ovo, Poderia ser qualquer avio!
 No! S poderia ser este avio! S este tem o prefixo mike-sierra-bravo!
Tia Matilde ficou aflita.
 Quer dizer que... que algum andou fazendo contrabando com meu aviozinho? Pepino! Aquele bandido! S pode ter sido ele!
 O problema  maior que somente contrabando, tia Matilde. Bem maior que as peles dos jacars assassinados aos milhes. Sol amarelo... sol vermelho... Vejam!
Miguel tomou o fuzil das mos de Andrade e arranhou com fora a fuselagem do avio, fazendo o barulho irritante do riscar de um giz na lousa.
Sob a camada de tinta cor-de-rosa, um brilho amarelo surgiu.
 A est! O ouro da Mfia!
Miguel arranhou mais a pintura, aumentando a certeza e a surpresa de todos.
 O avio  todo de ouro! Toneladas de ouro voando pelo Pantanal, todo esse tempo! Quem desconfiaria? Que melhor esconderijo do que esse para a riqueza do crime organizado? As placas de ao originais foram substitudas por placas de ouro puro! Foi isso que o professor Elias fotografou: um avio todo de ouro enquanto estava sendo pintado de rosa-choque! Sol amarelo: o ouro! Sol vermelho: o rosa sendo pintado!
Tia Matilde tremia da cabea aos ps.
 Pepino! Desgraado! Como pde fazer tudo isso? Miguel calou-se. Ele e Crnio entreolharam-se. O gnio dos Karas percebeu o erro em que incorrera. Agora compreendia tudo. O que tinha de ser dito a seguir era mais duro. E cabia a Crnio a parte mais difcil. No erraria mais.
 Entendi, Miguel. Deixe o resto comigo.
 Meu sobrinho! Viu o que fizeram com sua tia? Crnio aproximou-se de tia Matilde. Passou o brao por seus ombros, consolando-a.
 Pepino era mesmo um assassino, tia. Magri me contou tudo, l no avio. Se no fosse Calu, estaramos todos no fundo do mar a esta hora. Mas Pepino no agia por sua prpria cabea. Era um empregado deste Ente, que deve ser varrido do Pantanal. Pelo rdio, ao falar com o Centurio, Pepino disse que o Ente estava com um garoto metido e corria o risco de ser desmascarado. Calu sups, na hora, que Pepino falava de Miguel, que palmilhava o Pantanal junto com o Senador, seguindo as pistas deixadas por Magri. Quando Magri me contou essa conversa, minhas suspeitas contra o Senador se reforaram. Mas Pepino no se referia a Miguel, referia-se a Calu! Era Calu o garoto metido que estava indo para o acampamento junto com o Ente. Ele estava indo de avio!
 O que voc est dizendo, meu sobrinho?
 Por que o Centurio e Pepino pretendiam impedir a decolagem abrindo uma cratera na cabeceira da pista? Por que no colocaram logo a dinamite debaixo do avio?  tudo muito claro! Eles no podiam mandar o Ente pelos ares!
Crnio afastou-se alguns passos de tia Matilde e encarou-a.
 Tia Matilde! Tia! "Ente" no  apenas a pronncia de ant, que quer dizer "formiga", em ingls. "Ente"  tambm a pronncia de aunt, que quer dizer "tia", em ingls! Tia! Tia Matilde, a tia de todo o Pantanal! Tia Matilde: o Ente! O tesoureiro do crime organizado internacional! Pode prend-la, Andrade!
O rapaz estendeu o fuzil M-16 para o detetive, mas tia Matilde foi mais rpida. Com uma agilidade inesperada para seus sessenta anos, saltou como um tigre entre os dois.
 Quietos, meus queridos! Esta arma j fez muito estrago no Vietn. No quero que agora ela seja obrigada a fazer a mesma coisa no Pantanal...
Agilmente subiu para o C-47. Da porta empurrou a escada com o p.
Como se estivesse achando tudo aquilo muito divertido, Crnio perguntou alto, sorrindo abertamente:
  claro que a senhora sabe pilotar, no , tia Matilde?
  claro, sobrinho! No falei isso antes para dar um dia de glria ao seu amigo! Afinal, nunca haver dois garotos que possam se gabar de ter pilotado um avio de ouro macio, no ? Adeus, meu querido. Pena que voc tenha passado to pouco tempo com sua tia nestas frias. Da prxima vez, quem sabe? Lembranas em casa!
A porta fechou-se. Em um minuto, os motores do C-47 estavam em funcionamento. O Senador correu para o rdio do helicptero e sintonizou a freqncia do C-47.
 Tia Matilde! Tia Matilde! Entregue-se! No adianta tentar fugir. No haver lugar no mundo em que a senhora possa pousar sem ser presa na mesma hora. Entregue-se, tia Matilde!
Crnio estava de cabea erguida. Estivera errado todo o tempo e, no final, coubera a ele mesmo desmascarar a prpria tia.
 Minha teoria estava errada. Mas eu no tinha todos os dados, n?
A seu lado, Miguel sorria e estendia-lhe alguma coisa na palma da mo.
 Encontramos isso por a. Por acaso no  sua? Uma gaitinha de boca brilhava ao sol.
O gnio dos Karas abraou-se ao amigo, amigo, longamente...

***
O C-47 foi chamado pelo rdio durante quase duas horas. Tia Matilde sobrevoara a cordilheira dos Andes, e continuava para oeste, em direo ao oceano Pacfico.
O combustvel j devia estar no fim, quando pela primeira vez se ouviu uma resposta s chamadas de rdio. A esttica de transmisso entrou pelos alto-falantes do aeroporto de Corumb e todos puderam ouvir, claramente: Somewhere over the rainbow, way up high... way up high there's a land that I heard once in a lullaby...
Cantando, tia Matilde levava o ouro da Mfia para o fundo do Pacfico... Em algum lugar, alm do arco-ris...

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Esperavam a chamada para o embarque de volta a So Paulo. Embora sob o calor de Mato Grosso, Andrade no suava nem um pouquinho. Em volta da mesa da lanchonete, cercado pelos cinco Karas, ouvia o Senador comentar as ltimas informaes da Interpol, recebidas por telex:
 Tia Matilde era tia de todo mundo e no era tia de ningum. Dizem que foi uma jovem lindssima. J estava viva de um irmo do av de Crnio quando foi para os Estados Unidos casar-se com Don Vitrio, um dos mais poderosos capomafiosos do mundo!
 Herana de macarro!  gozou Magri.  Tia Matilde herdou foi a fortuna criminosa do marido e todo o seu poder. A tia-fazendeira do Pantanal! Alegre, espalhafatosa e toda envolvida em sua cor preferida. Que disfarce melhor para o Ente? Quem haveria de desconfiar dela?
"S mesmo estes meus queridos garotos!"  pensou Andrade, orgulhoso como um pai.
 Bem, o importante  que desbaratamos o crime organizado, pelo menos por ora  continuou o Senador.  Meus homens invadiram a fazenda Rosa-Pink, por terra e pelo ar, e conseguimos prender a turma toda.
 No fim das contas  avaliou Crnio  acabei no conhecendo a famosa fazenda de tia Matilde, Senador.
 A Fortaleza Cor-de-rosa do Crime!  apelidou Chumbinho.  Melhor mesmo no conhecer...
Crnio olhou para os curativos das mos, j quase curadas, e sentiu-se na obrigao de pedir desculpas ao
Senador.
 E eu, que julguei aquele seu discurso, no avio amarelo, como mais uma forma de encobrir o disfarce do tal Ente... Me enganei redondamente, Senador. Estou envergonhado...
 No h razo para isso, garoto. Afinal, vocs resolveram todo o caso, apesar de as acusaes terem comeado pelo lado errado. Acho que a minha cara no inspira muita confiana. Todos vocs desconfiaram de mim...
 Miguel no desconfiou!  Magri olhava com carinho para o lder dos Karas.
 De todo esse mistrio  Miguel mudou de assunto meio sem jeito  vai restar sempre uma dvida. Como desapareceu a caixa de slides do professor Elias l na sua fazenda, Senador?  perguntou Miguel.
 Se os slides foram roubados por algum agente da Mfia infiltrado na fazenda - sups Magri - certamente oram entregues  tia Matilde, A esta hora devem estar no fundo do Pacifico, junto com o ouro.
 Mas que velha danada!  riu Chumbinho.  Quem poderia desconfiar dela? Quando Crnio foi capturado ela fez questo de liderar as buscas, para afastar todo mundo do acampamento do Centurio.
 E, no avio rosa-choque, ela representou melhor do que eu!  lembrou Calu. - Quando Pepino veio propor o falso ataque ao acampamento do Centurio, a velha representou como uma profissional. Nem eu desconfiei!
 A conta  minha!  exigiu o Senador, com aquela voz impressionante, arrancando a conta da lanchonete das mos do detetive. - Mas vocs tm de me explicar por que temos de esconder da imprensa, de todo mundo a atuao brilhante de vocs nesse caso!
 Para todos os efeitos, Senador, eu estou de frias  explicou Andrade  E os garotos no gostam de publicidade. Queremos que essa vitria seja toda sua!
 Eu no preciso de gloria, detetive Andrade. Eu preciso do Pantanal. Eu preciso deste paraso, vivo, cheio de jacars, e com os ndios caando livremente por entre as arvores. A gloria no vai me devolver os ninhais destrudos no vai salvar a cultura indgena, no vai combater as piranhas e repor os jacars assassinados.

***
No alto da rvore, Cabo Malandro estava aborrecido. Aquela caixa no continha amendoins, nem biscoitos. Aquelas porcarias quadradinhas eram duras e tinham um gosto horrvel!
Chateado, o macaquinho comeou a jogar os slides no rio, um a um.
 
 
AUTOR E OBRA
Pedro Bandeira nasceu na cidade de Santos, em 1942, e veio para So Paulo em 1960 estudar Cincias Sociais. Foi jornalista, editor, publicitrio, ator de teatro e de comerciais de televiso. Desde 1983 dedica-se a este maravilhoso dilogo impresso com a juventude brasileira.

Literatura Infantil: Pequeno pode tudo (1987), Trocando as bolas (1985), O Pintinho do Vizinho (1985), Cavalgando o arco-ris (1984),  proibido miar (1983), O dinossauro que jazia au-au (1983) e O fantstico mistrio de Feiurinha (1986  Prmio Jabuti  Cmara Brasileira do Livro  Melhor Livro Infantil).

Literatura Juvenil: Malasaventuras  Safadezas do Malasarte (1984), Ameaa de 7 cabeas (1985), O elefante assassino (1986), A Droga da Obedincia (1984), De Piolho a Garrote (1984), A marca de uma lgrima (1986  Prmio A.P.C.A., Associao Paulista de Crticos de Arte  Melhor Livro Juvenil) e Pntano de sangue (1987).

Para Pedro Bandeira, dialogar com os jovens significa troca, e no imposio de idias. A Droga da Obedincia e sua espetacular aceitao por parte da juventude acabaram levando a este Pntano de sangue, mais uma aventura protagonizada pelo grupo dos Karas. Mais uma oportunidade para dialogar com os jovens e dividir com eles mais algum espantos. Mais algumas perplexidades diante de problema: to graves como a destruio da natureza, o esmagamento da minoria indgena, a absurda concentrao das terras i da riqueza neste Brasil, que faz com que a misria seja levada at a um pedao de paraso como o Pantanal.